segunda-feira, 27 de março de 2017

O fantasma de Junho: o fetiche do espontaneísmo e o caminho da derrota

Esse texto começa com curtas linhas sobre uma longa história. Ao final dos anos 70, em plena ditadura empresarial-militar, o sindicalismo brasileiro começa a viver um período de renascimento e formação de direções combativas (ainda que combatidas sem perspectiva socialista ou comunista) que se constituem em oposições sindicais, fazem trabalho de base, mobilizam as categorias, criam rebeliões da base contra as direções burocráticas e organizam grandes greves.

Essas oposições sindicais passam a ganhar vários sindicatos e o trabalho de base nas CIPAS e comissões de fábrica torna-se secundário. Os combativos sindicalistas que fundaram a CUT e balançaram o país acabam paulatinamente sendo absorvidos pela gestão das máquinas sindicais e entrando numa lógica onde o horizonte primeiro era garantir a continuidade da gestão: a luta econômica por salários e melhores condições de trabalho deixou de ser um fim para tornar-se o meio de manter a direção do sindicato.

Aí vem o processo de institucionalização do Partido dos Trabalhadores. O PT quanto mais penetra no aparato eleitoral do Estado burguês, elegendo vereadores, prefeitos, deputados, governadores etc. traz sindicalistas para esses mandatos e governos, e cria a dupla função das direções sindicais: conciliar seu objetivo de manter a direção dos sindicatos com seu instrumento de garantia da governabilidade e ampliação da capacidade eleitoral do partido. Depois da virada estratégia do PT em 1995, marcada pela eleição de José Dirceu, a presidência nacional do partido, a aliança com partidos burgueses, o recebimento de financiamento empresarial, a burocratização e limitação da democracia interna, e o rebaixamento teórico e estratégico, passaram a dominar a prática política do PT e seus braços, como a CUT, e muitos ex-sindicalistas combatentes, passaram a ser gestores dos interesses da burguesia – exemplo disso é Luiz Gushiken, que passou de sindicalista bancário, líder de greves históricas nos anos 80, para defensor de fundo de previdência privada para funcionários do Banco do Brasil.

A continuidade de nossa história com a ascensão de Lula à presidência em 2003 é bem conhecida. O setor hegemônico da esquerda, o campo democrático-popular (PT, PCdoB, CUT, Levante Popular, UJS, CTB etc.), tornou-se, definitivamente, um fator de apassivamento da classe trabalhadora e deixou de fazer trabalho de base e mobilizar, organizar e elevar a consciência da classe explorada. A esquerda socialista/comunista, em toda sua diversidade, segue tentando superar a hegemonia do petismo com sucessos pontuais, mas sem atingir seu objetivo estratégico, inovando mas repetindo várias práticas políticas do petismo, e com pouca base social de mobilização (embora essa base esteja em crescimento lento mas constante)

Essa configuração criou situações, no mínimo, esdrúxulas. Um exemplo clássico: todo ano o preço da passagem é aumentado. Movimentos que não faziam (e uns que até hoje não fazem) trabalho de base e militância cotidiana sobre a questão do transporte se reúnem para protestar contra o aumento das passagens; os protestos seguem trajetos clássicos, ritualizados; a adesão popular é baixa ou quase nenhuma; onde PT e PCdoB eram governos, essas organizações trabalhavam por protestos fracos e com rápido encerramento; já entrávamos na luta com a certeza de derrota e algo só saía do roteiro com golpes de sorte: como uma cena de violência policial que de tanto chamar atenção acabava produzindo protestos maiores.

Esdrúxula não é apenas a situação, mas os diagnósticos: passou a ser moda afirmar que o problema era a existência de velhas práticas e que era necessário criar o novo, a novidade, a inovação – num misto de idealismo e servilismo, o que era esse novo nunca foi bem explicitado, mas quando aparecia uma moda europeia, como o Syriza grego, o novo era finalmente encontrado. Pouco tempo depois, quando o novo falia, como no Occupy Wall Street, ou tornava-se gerente da direita, como o Syriza, os caçadores de novidade deixavam de falar do tema [1].

Contudo, em praticamente todo espaço da esquerda (seja da socialista/comunista ou dos setores ex-governistas) aparece a fala do “precisamos voltar a fazer trabalho de base”. A autocrítica comparece na fala dos setores hegemônicos da esquerda e não na prática política. Mas aí vem Junho de 2013 e a mal chamada “Primavera Árabe” – que não foi nem primavera e muito menos árabe.

A partir disso fortaleceu-se o fetiche do espontaneísmo e das redes sociais: marcação de protestos de rua sem agitação e propaganda, trabalho de base, planejamento e criatividade nas ações. A espera de uma explosão espontânea de massa e a ilusão de que as redes sociais são centrais, ou melhor, suficientes nas “mobilizações” para atos, passou a naturalizar a prática política burocrática e “elitista” de operar atos e paralisações via máquinas burocráticas sindicais e de entidades.

Em reuniões de organização de atos sempre se fala de artes da internet e criar eventos no Facebook. Em muitos momentos, esse espontaneísmo apresenta resultados – por diversos motivos –, como no dia de lutas do 15 de março. Na maioria das vezes, porém, o resultado é contrário. Antes do 15 de março, por exemplo, onde atuo no movimento estudantil, na UFPE, apenas a UJC promoveu atividades de divulgação do ato e ações de agitação e propaganda sobre a contrarreforma da previdência. Entidades com máquinas gigantescas, como a CUT, sequer realizaram uma panfletagem nos metrôs e terminais de ônibus.

Depois do “sucesso” do 15 de março, esperam-se sempre mais pessoas no próximo ato. Essa espera, quase religiosa, serve como confortável sentimento de naturalização da ausência de trabalho de base. Fato notável desse espontaneísmo é a reação das centrais sindicais à aprovação da terceirização irrestrita pela Câmara dos Deputados. Em seguida a esse processo, a CUT e a CTB afirmam que vão puxar uma greve geral para abril. No site dessas centrais sindicais não existe qualquer direcionamento prático de como isso será feito. O mínimo lógico esperado é desde já a linha política de puxar assembleias para decretar estado de greve e deflagrar greves em todos os sindicatos. A greve geral não será construída com atos de rua, embora atos de rua façam parte, mas sim com uma combinação criativa de atos de rua, ocupações, trancamentos e paralisação, e greve em cada categoria, até que se crie uma situação mais próxima possível de paralisação dos setores públicos e privados da economia.


Os comunistas devem, portanto, travar dois duros combates nesse aspecto: atuar enquanto o campo político mais determinado e persistente no trabalho de base real e no diálogo com os trabalhadores, trabalhadoras e as juventudes, distantes das universidades públicas, das entidades estudantis e do sindicalismo, e combater o imobilismo da CUT, CTB e movimentos sociais ligados ao campo democrático-popular. Empurrá-los para a luta, denunciar toda conciliação e ausência de trabalho de base real. Na lógica do golpear juntos, mas marchar separados, temos que, inclusive, lutar para que eles se movam para golpear e combater o fetiche do espontaneísmo e das redes sociais, o que é fundamental nesse processo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI SUA OPINIÃO!
responderei.