quinta-feira, 16 de março de 2017

Sobre o discurso de Lula na jornada de lutas do dia 15 de março

Em São Paulo, Lula, o ex-presidente e presidenciável para 2018, discursou. Assistir com bastante atenção o discurso curto de Lula (dez minutos) e publico algumas impressões da fala do ex-presidente. Antes disso, porém, cabe pontuar que Lula foi figura AUSENTE na luta contra a PEC da morte e agora, na luta contra a contrarreforma da previdência, ele aparece DEPOIS de começar campanha eleitoral. Algumas pessoas de forma caricatural dizem que se Lula aparecer será criticado e se não aparecer também. Isso é falso. Crítico Lula por omissão – não que eu espere nada dele, mas há pessoas que ainda esperam – e opor oportunismo eleitoral. Mas comentando o discurso:


Lula, Palocci e Meirelles
A) O discurso de Lula é o discurso da FIESP, CNI e ABIMAQ com uma estética de esquerda e sem a ênfase no corte de direitos trabalhistas. Exagero? Não. Lula resume todos os problemas do país e da população a falta de crescimento econômico. Na visão do ex-presidente o “problema da previdência” se resolve com crescimento econômico que gera por derivação emprego, renda e aumento da arrecadação. Durante seu discurso diz que os bancos públicos precisam voltar a ter forte atuação, o BNDS financiar investimentos, o crédito voltar a fluir, as pessoas comprarem. Ou seja, o mesmo programa político do segundo mandato. É inútil esperar que Lula fale da revogação da PEC da MORTE, auditória da dívida, reforma tributária ou lei de remessas de lucro como resposta à “crise econômica”. O Lula continua o “lulinha paz e amor”.


B) Lula criticou Meirelles e Temer dizendo que eles não escutam o povo. É claro, porém, que Lula não fez qualquer autocrítica da sua contrarreforma da previdência, manutenção da DRU (DRU = desvinculação de receitas da união. É um mecanismo jurídico que permite desviar dinheiro da seguridade social para pagar juros e serviços da dívida. Foi criada por FHC e mantida pelos Governos do PT) e “esqueceu” que Meirelles foi homem forte da sua política econômica e que ele pressionou Dilma a colocar Meireles como Ministro da Fazenda (o mesmo cargo que ocupa hoje) em 2014.


C) Seria esperar demais de Lula tratar a contrarreforma da previdência como uma ofensiva da burguesia contra a classe trabalhadora. Mas o discurso de Lula a previdência não aparecia nem como um direito universal a ser garantido e ampliado. O cerne da crítica é que “cortar” a previdência é um erro econômico que enfraquece o mercado interno e por isso dificulta o crescimento econômico. A perspectiva de DIREITOS UNIVERSAIS não compareceu na fala do Lula – essa visão explica os motivos de Lula não falar em revogar a PEC da MORTE.


D) Lula em oito anos de Governo NUNCA chamou o povo às ruas. Mas disse que a mudança passa pelas ruas e não podemos sair dela, contudo, do meio para o final do discurso, afirma que a grande solução para o país é eleger por voto direto um presidente com legitimidade social (ele, naturalmente). O clássico discurso da reforma política sumiu do mapa.


Ps: Lula estava com o discurso escrito em mãos (é possível ver no vídeo). Logo, esse discurso não foi improviso. Foi pensado e muito bem pensado. E as “omissões” são planejadas.


Ps¹: O discurso de Lula é tão made in FIESP que ele conseguiu a proeza de ficar à direita de um Ciro Gomes ou Randolfe Rodrigues (e isso é bem difícil).


PS²: É difícil imaginar um discurso que consiga agradar a FIESP e a burocracia sindical com tanta eficiência. É o projeto de conciliação em movimento.



Link do discurso: https://www.youtube.com/watch?v=nceByLm6Xnk

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