quarta-feira, 19 de abril de 2017

A Coréia do Norte é uma ameaça à paz no mundo?

Desde que comecei a militar e acompanhar política (2013), não consigo lembrar de um mês em que a Coréia do Norte (nome verdadeiro: República Democrática Popular da Coréia) não esteve nos jornais, sites de notícia e televisão. O padrão de apresentação das notícias sobre a Coréia Popular é algum “fato” bizarramente ridículo, como a falsa notícia de que Kim Jong-Un teria mandado matar um oficial do exército com lança mísseis porque ele dormiu numa reunião (!!!), “análises” sobre como a Coreia Popular ameaça o mundo com seu militarismo e postura agressiva, ou alguma reportagem sobre o cotidiano da “ditadura totalitária”.

Nunca perco a oportunidade de lembrar que esse padrão de propaganda ideológica contra a Coréia Popular é parte de uma concepção racista contra os povos asiáticos, enraizada na dominação imperialista iniciada no século XIX. O racismo não é uma arma de dominação apenas contra a população negra e o continente africano: negros, árabes e asiáticos são historicamente as principais vítimas (não as únicas!) do racismo colonial das potências imperialistas. A ideologia do “perigo amarelo” mante-se de diversas formas, e uma delas é a noção de que tudo na Ásia é tão bizarro, tão incivilizado, que “notícias” que nunca receberiam credibilidade se fossem sobre algum país europeu – como o factóide de que todos os nortecoreanos são obrigados a cortar o cabelo igual ao de Kim Jong-Un -, parecem críveis quando se trata da Coréia Popular.

Uma das principais funções da ideologia é inverter a realidade falseando-a. Um dos maiores exemplos disso é a suposta postura agressiva da Coréia Popular contra o mundo e sua política de ameaça à paz. Vamos refletir um pouco sobre isso. A Coreia Popular não têm bases militares fora do seu território – nenhuma! A República Democrática Popular da Coreia existe desde os anos 50 e, até hoje, nunca (nunca!) ocupou qualquer país do mundo. Impossível achar um exemplo histórico da Coreia invadindo um país afirmando que ele tem armas de destruição em massa, destruindo-o, para supostamente livrá-lo do ditador assassino (matando infinitamente mais que o antigo ditador) e, ao fim de tudo, confessar que nunca houve nenhuma arma do tipo.

Quando a Coreia se envolveu numa guerra? O Japão fascista e colonialista invadiu a milenar nação coreana bem antes da Segunda Guerra Mundial. Forças nacionalistas e comunistas organizaram a resistência nacional, sob a liderança de Kim Il-sung. As forças populares, dirigidas pelos comunistas, conseguiram uma grande vitória sobre o fascismo japonês e, assim como o povo chinês, consolidava sua libertação nacional com um processo revolucionário socialista. Os Estados Unidos, buscando barrar o avanço da revolução socialista, entraram na península coreana e começaram uma guerra contra a Coreia. Não existe “guerra da Coreia”, mas sim uma guerra contra a Coreia. Foi uma guerra do exército de libertação nacional coreano, com apoio da República Popular da China e da União Soviética, contra a ocupação estadunidense.

O combate chegou a um impasse e os EUA dividiram a milenar nação coreana em duas, criando um estado fantoche no sul. Desde o armistício (uma espécie de paz temporária) até hoje, a diplomacia da Coreia do Norte tem como grande objetivo conseguir reunificar a nação coreana, sem a interferência dos EUA ou de qualquer outra potência imperialista (mesmo quando existia um campo socialista, sempre foi uma preocupação dos líderes da Coreia Popular garantir sua autonomia política e independência nacional; e quem acha que a China manda na Coreia não entende absolutamente nada da geopolítica da Ásia).

Enquanto reconstruíam o país da destruição causada pela guerra contra o fascismo japonês e o imperialismo estadunidense, o povo coreano presenciou a carnificina dos EUA contra Vietnã, Laos, Camboja, Indonésia, Malásia etc. Segundo o documentário Guerra à Democracia, do diretor Jonh Pilger, os EUA, desde os anos 50 até hoje, participaram de forma direta ou indireta de mais de 50 invasões e golpes militares. Os EUA ainda mantêm armas atômicas, porta aviões e mais de 50 mil soldados (divididos entre Coreia do Sul, Japão e outros país) na proximidade das fronteiras da Coreia Popular.

Percebam a gravidade geopolítica da questão: o país mais poderoso militarmente do mundo mantém um contingente enorme de soldados, armas e bombas atômicas apontadas para a Coreia Popular e todos os presidentes dos EUA (seja Bush, Obama, Trump ou quem seja) dizem abertamente que querem provocar uma “mudança de regime” na Coreia Popular (ou seja, derrubar seu governo e sistema político por meio de um golpe e/ou intervenção militar). Não é perfeitamente lógico nessa situação que os governantes e o povo coreano dediquem uma atenção especial ao fortalecimento do setor militar como forma de garantir sua soberania nacional?

Esse é o “x” da questão: o “militarismo” e o programa nuclear coreano não são uma ameaça ao mundo, mas uma forma de defesa. Quero terminar a argumentação com dois exemplos ilustrativos. George Bush definiu como “eixo do mal” países como Coreia do Norte, Cuba, Irã, Líbia, Síria, Afeganistão e Iraque. Com exceção de Cuba – onde o que impede a invasão é um determinante bem mais político que militar –, quase todos esses países tiveram ação militar dos EUA ou da OTAN contra seu território, menos Irã e Coreia Popular. O Irã é um país industrialmente significativo e também possui um forte setor militar e capacidade de desenvolver armas atômicas.

A Líbia, durante décadas, foi um exemplo de nacionalismo revolucionário anti-imperialista, mas, com o tempo, o governo liderado por Muamar Kadafi passou a buscar uma integração subordinada ao sistema imperialista. Como prova de confiança de Kadafi ao imperialismo, a Líbia desistiu de seu programa nuclear e a construção da bomba atômica. Poucos anos depois: a OTAN estava invadindo o território líbio, matando Kaddafi, destruindo um dos países mais estruturados de África e entregando suas riquezas, especialmente o petróleo, totalmente nas mãos dos monopólios imperialistas do setor.


Resumindo o argumento: a Coreia Popular não é uma ameaça à paz no mundo; o que ameaça a paz é o imperialismo, o complexo industrial-militar e a OTAN. A Coreia contribui com a paz no mundo, garantindo com armas na mão sua defesa e impedindo que aconteça com essa milenar nação o que aconteceu com o Iraque, Afeganistão, Líbia ou Síria. 

Para se aprofundar no assunto, conferir esses materiais: 
http://www.pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=5878:coreia-do-norte-entre-a-guerra-a-paz-e-o-futuro&catid=25:notas-politicas-do-pcb
https://blogdaboitempo.com.br/2013/04/17/kim-jong-un/
https://www.youtube.com/watch?v=OK2_JvZhFj4
https://www.youtube.com/watch?v=9OZ48Bj6kRI

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