terça-feira, 4 de abril de 2017

Considerações sobre a pesquisa da Fundação Perseu Abramo (FPA)

A FPA, instituição de pesquisa acadêmica do PT, divulgou uma pesquisa qualitativa sobre o imaginário cultural e político de trabalhadores da periferia paulista. A pesquisa está gerando muitos comentários, avaliações e surpresas. O Estadão, em editorial, diz que a pesquisa da FPA põe em xeque o discurso do PT. Na realidade é justamente o contrário. Eu acabei de ler a pesquisa (afinal, antes de comentar é importante... ler) e destaco algumas coisas:


A) A pesquisa é de tipo qualitativo. Seu objetivo não é afirmar que a maioria da periferia paulista pensa daquela forma, mas identificar tipos-médios - quase tipos ideias weberianos - dentro de determinados estratos de renda, idade e gênero. A pesquisa deixa bem claro que não é toda periferia que pensa (ou mesmo a maioria) da forma como o tipo-médio encontrado, mas que o resultado é um dos imaginários culturais e políticos possíveis dentro do complexo ambiente sociológico da periferia paulista.


B) A pesquisa prova o SUCESSO do neodesenvolvimentismo na formação da consciência dos trabalhadores. O paradoxo político é que o sucesso do neodesenvolvimentismo significa uma queda política e eleitoral do PT. Vejamos:


- As noções de solidariedade coletiva, identidade de classe ou a visão da burguesia como um inimigo são praticamente inexistentes no tipo-médio rastreado. Porém, é muito valorizado a noção de pertencer a "classe média" (lembra do país de classe média?), o papel do consumo como signo de distinção social, empreendedorismo e mérito individual (todas noções do novodesenvolvimentismo).


- As noções de esquerda e direita não fazem sentido para os entrevistados e existe uma solidariedade com o empresário: como se trabalhadores e empresários tivessem o mesmo interesse e fosse o Estado o grande vilão que com altos impostos e ineficiência atrapalha o crescimento econômico e as possibilidades de empreender (consequência óbvia, me parece, da ideologia da conciliação de classe do petismo).


- A educação é visto como o grande ativo para superar as desigualdades e "subir na vida". Mesmo reconhecendo que as oportunidades não são iguais, o tipo-médio acha que com esforço e boa educação todos consegue ascender socialmente. A noção de reformas estruturais como indispensáveis para garantir níveis mínimos de "justiça social" e igualdade de oportunidades sumiu. Quer coisa mais petista que considerar possível combater a desigualdade sem transformações estruturais melhorando apenas o acesso à educação e ao emprego?


C) A noção de ascensão social individual tomou o lugar da transformação coletiva. É por isso que Lula, Silvo Santos e Doria são vistos como expressões de pessoas que vieram de baixo e conseguiram sucesso. E não foi a recusa de mobilizar o povo para transformações coletivas e focar em ascensão individual uma das marcas fundamentais do desenvolvimentismo petista?


A Pesquisa da FPA mostra o sucesso tremendo do petismo como um pedagogo da consciência de classe da periferia. Não é a falência do discurso petista como diz o Estadão. Antes o seu sucesso. A questão de explicar como esse sucesso ideológico pode representar uma derrota política e eleitoral é outra questão.


Enfim, no mais, essa pesquisa só prova algo que pensadores comunistas como Mauro Iasi vêm afirmando há mais de dez anos: a estratégia política petista operada desde 1995 e acelerada a partir dos anos 2000 buscou diluir a identidade de classe e a necessidade da mobilização social para as transformações coletivas. O resultado é um reforço do individualismo, despolitização, apassivamento e ocultamento da identidade de classe.


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