domingo, 16 de abril de 2017

É possível ser religioso e comunista?

Existe um discurso conservador baseado numa “meia verdade” de que é impossível ser comunista e ser religioso, pois os marxistas pelo seu método, o materialismo-histórico, são filosoficamente ateus, e politicamente contra as religiões. Na situação brasileira essa lenda é reforçada pela ideologia reacionária de “defesa da família” (na verdade uma perspectiva antifeminista, LGBTfóbica e conservadora) e a noção de que os comunistas estão contra a instituição familiar.

Nosso objetivo nesse texto é argumentar porquê é possível ser um marxista [comunista] e ser religioso; contudo, cabe desde de já uma advertência: não existe a rigor “um marxismo”, mas marxismos (no plural) e uma diversidade de corretes teórico-políticas dentro do movimento comunista. Nos filiamos a uma leitura que acreditar ser possível compatibilizar religiosidade com a luta comunista, outras correntes teóricas têm perspectivas de análise diferente.

A primeira coisa a ser dita é explicar brevemente as origens da “treta” entre religião (especialmente a Igreja Católica) e os marxistas. A Igreja Católica, nas sociedades feudais e durante o período absolutista, era a principal instituição de controle e ordenamento da educação, cultura e moral. A Igreja estava contra os valores humanistas burgueses que se expandiam e assumiu a posição conservadora em defensa da ordem feudal. Mostrando impressionante capacidade de adaptação ao meio, quando o capitalismo se consolida na Europa, a Igreja Católica (e o cristianismo protestante) consegue sem problemas operar como uma instituição pró-capitalismo realizando algo fundamental: ensinando os trabalhadores miseráveis que o seu reino era no céu e não na terra produzindo conformismo, incompreensão das formas de funcionamento da sociedade e injetando preconceitos reacionários.

O  marxismo sempre teve em sua história um confronto com a religiosidade no geral e a Igreja Católica em particular porque a religião era um instrumento da classe dominante [“elite’] para dominar os trabalhadores, impedir sua organização e conquistas. A famosa e descontextualizada frase de Marx “a religião é o ópio do povo” se refere a situação dos territórios que posteriormente iriam constituir a Alemanha (nessa época não existia inda um estado alemão unificado) onde o atraso político, cultural e econômico e a miséria das massas era mantido com grande contribuição da religião cristã.

Além disso, cabe lembrar que o cristianismo da época de Marx e Engels se pretendia como uma visão holística de mundo, ou seja, através da teologia se pretendia explicar todos os fenômenos existentes: seja de ordem física, biológica ou social. O materialismo-histórico representa uma revolução na compreensão de mundo, dentre outras motivos, porque mostra que todas as formas sociais – exemplo: a forma como organizamos a economia – não são dados eternos, naturais, frutos da vontade de Deus ou da natureza humana, mas processos históricos que como tais podem ser transformados através da ação política coletiva. Tudo que existe é histórico e justamente por isso pode ser transformado. É impossível conciliar essa visão com a ideia de o mundo [capitalista] é da forma que é porque Deus quis e assim sempre o será.

Mesmo com esses elementos, ainda na época de Marx e Engels, os dois revolucionários perceberam algo fundamental: existe uma diferença entre o cristianismo popular e o cristianismo produzido nas hierarquias das instituições religiosas e a religião, em determinados contextos históricos, pode assumir um papel de mobilização para luta. A Irlanda católica era uma colônia da Inglaterra protestante e como parte do domínio colonial os ingleses tentaram banir o catolicismo do país. O povo irlandês unido pela sua identidade nacional e religiosa passou a se organizar e lutar bravamente contra o colonialismo inglês. A religião era um fator de mobilização e combatividade – contra, é claro, a vontade da alta hierarquia do Vaticano.

Assim como Marx e Engels, vários marxistas, como Fidel, Gramsci, Lênin, Mariátegui, Domenico Losurdo etc. perceberam que a religião na maioria das vezes é usada como instrumento de manutenção das desigualdades de classe, mas em vários momentos históricos, ela é um instrumento de luta, e que é necessário perceber a luta das grandes instituições religiosas contra as adaptações populares das diversas religiões. Essa percepção fez com que o Estado socialista em Cuba deixasse de se proclamar um Estado ateu para ser um Estado laico com total liberdade religiosa, que os comunistas na Ásia tenham apoiado de diversas formas os movimentos nacionalistas-revolucionários islâmicos nas suas lutas contra o imperialismo, a criação da Teologia da Libertação (fusão entre cristianismo e marxismo), a existência de guerrilhas cristãs-marxistas na América Central etc.
E quanto a conciliar a visão de mundo holística de certas religiões (como cristianismo e islamismo) e o materialismo-histórico? De um ponto de vista estritamente filosófico, essa questão é complicada e não irei abordá-la em profundidade nesse texto (já que é um texto básico e simples), porém de um ponto de vista político o que conta é consegui “realizar a análise concreta de situações concretas” da luta de classe. Se o sujeito acha que é Deus ou Xangô que o ajuda a manejar bem as ferramentas de análise do marxismo e a pensar as estratégias e táticas políticas, isso não importa; o importante é acertar na análise e na prática política. 

Portanto, não é impossível ser religioso e comunista. É impossível defender uma visão conservadora, culturalmente reacionária e legitimadora das desigualdades de classe da religião e ser comunista. É impossível também achar que as formas e processos sociais existentes são frutos da vontade divina e imutáveis. Esse tipo de compreensão produz a famosa caridade cristã que quer “ajudar o pobre, mas não criar a condição para que não existam mais pobres”. Com disposição para luta, compreensão crítica da realidade social e organização todo religioso pode e deve ser comunista

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