segunda-feira, 24 de abril de 2017

Industrialização e crescimento econômico: falsas respostas à “questão social”

- INTRODUÇÃO
JK e Lula

Desde o processo de libertação do colonialismo espanhol, instaurou-se na América uma controvérsia sobre a dependência. Intelectuais, políticos, partidos, movimentos sociais e instituições de pesquisa acadêmica refletem há décadas sobre os motivos do “atraso” latino-americano, as condições de vida do seu povo e as soluções para superar os problemas vividos. Existe tanto na América Latina como um todo, como no Brasil em particular, um riquíssimo material com diferentes leituras da realidade e propostas de intervenções de acordo com os confrontos históricos do momento e os interesses de classe e grupos que permeiam essas formulações (LOWY, 2012).

Na sociedade dívida em classe, nenhuma formulação teórica com expressões de massa é despida de um liame de classe. É parte da luta de classe uma encarniçada batalha pela direção moral, política e intelectual da sociedade – isto é, das diversas classes, frações e grupos sociais – e essa direção é obtida através de uma economia política que combina de forma estratégica a coerção e o consenso (LENIN, 2012; OSORIO, 2014). Os dominados, tendencialmente, estarão amoldados à ordem dominante porque as próprias formas sociais capitalistas produzem isso: o fetichismo da mercadoria e alienação são complexos sociais típicos e inseparáveis do capitalismo (MARX,2013).

Contudo, o capitalismo é permeado de contradições, e o amoldamento à ordem do capital precisa ser construído e reproduzido, ao mesmo tempo em que é reposto pela base material própria das relações sociais e de produção existentes. Nesse processo as classes e frações de classe atuam concretamente através de suas expressões políticas (como partidos ou movimentos), aparelhos ideológicos e intelectuais que funcionavam como produtores de uma hegemonia político-cultural sobre a sociedade, e tornará o interesse particular de uma classe, ou bloco de classe, como o interesse geral, universal.

Esse processo de peleja pela hegemonia não é lastreado apenas no plano ideal dos confrontos teóricos e culturais. Além de estar assentado na estrutura própria das relações materiais de produção e reprodução da vida - a base real da construção das experiências políticas, ideológicas e organizativas das classes – e ser mediada pelos aparelhos ideológicos e expressões políticas (com seus diversos níveis de integração ao aparato político do Estado burguês), um projeto hegemônico sobre as classes dominadas também exige uma base material de interesses tangível no cotidiano dos explorados, isto é, níveis de concessão, ainda que mínimos e que na prática não sejam realmente concessão[1].

É um objetivo permanente das classes dominantes que assume diferentes formas e conteúdos históricos de acordo com as fases do capitalismo, padrão de acumulação de capital e conjunturas, ocultar do debate e da luta política as relações de produção e forjar projetos de desenvolvimento burguês que logrem adesão de massa. É parte da grande política burguesa reduzir a práxis política dos explorados a questões secundárias como brigar por tal ou qual política pública, excluindo do horizonte de ação a questão do poder, das reformas estruturais e, óbvio, a revolução social.

Nosso objetivo nesse artigo é analisar duas grandes formulações teóricas que foram instrumentos do bloco no poder em suas respectivas épocas históricas para cimentar a direção política e moral sobre as classes exploradas: a ideologia da industrialização e do crescimento econômico como respostas resolutivas aos problemas fundamentais da classe trabalhadora, isto é, as expressões da “questão social”[2].

Iremos, primeiro, situar sem qualquer pretensão de esgotar o tema, o papel da ideologia da industrialização no âmbito do desenvolvimentismo e suas variadas facetas, posteriormente debater a substituição da ideologia da industrialização pela ideologia do crescimento econômico no bojo do neoliberalismo, e na parte final do artigo mostrar como esses construtos ideológicos representam estratégias da classe dominante para obter o consenso dos dominados e banir da ação política a tematização do subdesenvolvimento, dependência e a superexploração da força de trabalho: as determinações fundamentais que particularizam o capitalismo dependente brasileiro e sua inserção no processo de acumulação mundial de capital.

- Superar o subdesenvolvimento sem a revolução: o desenvolvimentismo e a ideologia da industrialização.

Ao final da Segunda Guerra Mundial a revolução anticolonial que marca o século XX, e que teve na Revolução de Outubro seu primeiro grande capítulo, e na vitória soviética sobre o nazifascismo o segundo, explode na periferia do sistema capitalista[3]. Os países de África e Ásia, em luta pela sua emancipação nacional, tendiam a manter uma proximidade maior com o campo comunista liderado pela União Soviética[4] e viam na planificação econômica (e não necessariamente no “modelo” socialista) uma estratégia de desenvolvimento adequada aos seus interesses. Na América Latina, os partidos comunistas passavam por processos de massificação e tornavam-se atores políticos com maior peso e importância na luta de classe.

Era necessário para o sistema capitalista liderado pelos Estados Unidos organizar uma contraofensiva política e ideológica de proporções mundiais e em cada país capitalista, para impedir o crescimento e adesão de massa aos projetos socialistas e nacional-revolucionário terceiro-mundistas. Para a América foi criado a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e as universidades, fundações e mídias estadunidenses passaram a exportar as teorias sobre o desenvolvimento para os países periféricos[5].

Embora a Cepal em muitos momentos tenha demostrado uma “radicalidade” não aceita pelo imperialismo[6], a perspectiva desse órgão era explicar o subdesenvolvimento latino-americano atrás do processo chamado “deterioração dos termos de troca”, ou seja, a pauta de exportação dos países de Nuestra América estava centrada em mercadorias primárias com reduzida produtividade no trabalho. A centralidade da produção agroexportadora obrigava o país a importar os produtos industrializados necessários e como no “mercado internacional” o preço dos manufaturados é sempre tendencialmente maior que dos produtos primários, havia uma “troca desigual” entre os países do centro e os da periferia, onde os últimos transferiam capital para os primeiros.

Os enclaves urbano-industriais não conseguiam se desenvolver porque o grosso do país estava preso numa economia primário-exportadora voltada para fora que conformava um reduzido mercado interno devido aos baixíssimos salários do trabalhador urbano como consequência de um constante êxodo rural, devido ao domínio do latifúndio no campo, a criar uma superpopulação relativa sempre ampliada. Sem um mercado interno sólido e forte e uma política econômica que criasse as condições para a superação da divisão, chamada de dualismo estrutural, entre o enclave urbano-industrial e a sociedade agrário-exportadora, seria impossível desenvolver um processo de acumulação capitalista centrado na industrialização e urbanização do país com um redirecionando do processo produtivo para as demandas do mercado interno (BAMBIRRA, 2013; MARINI, 2013).

A Cepal não só analisava os problemas de América Latina como divulgava vários relatórios com “soluções” a serem aplicadas. Em nosso país o principal nome do pensamento cepalino foi Celso Furtado  e a expressão máxima do desenvolvimentismo[7], corrente de pensamento heterogênea e dinâmica que a Cepal contribui na formação, foi o Instituto de Estudos Brasileiros (Iseb).

A reforma agrária, o planejamento estatal indicativo como forma de aumentar o investimento de capital nas áreas prioritárias ao desenvolvimento, as compras governamentais e empresas públicas na potencialização do processo de substituição de importações e fortalecimento do mercado interno, e o investimento em educação e produção de ciência e tecnologia nacional (todas essas medidas dentro de uma política econômica protecionista) são as medidas mais indicadas nos debates correntes dos anos 50 e 60 pelo pensamento cepalino e desenvolvimentista (MANTEGA, 1980. p. 24-63).

Todas essas medidas e a ferramentaria de política econômica que as acompanhava tinha um fio condutor: a industrialização. O desenvolvimento da indústria como o grande dínamo modernizador das economias periféricas que iria propiciar a superação do dualismo estrutural, ou seja, do atraso e do subdesenvolvimento, alçando o país à condição de país em desenvolvimento. A industrialização, sem grandes pormenores, era entendida como a multiplicação de plantas industriais pelo país e o maior peso da indústria na economia nacional (exemplo: na composição do PIN/PNB, porção de força de trabalho empregada, crescimento na pauta de exportação etc.).

Guardadas as devidas proporções e diferenças importantes, os intelectuais do Iseb, como Alberto Guerreiro Ramos[8], as formulações do Partido Comunista Brasileiro (PCB)[9] e as análises da CEPAL convergiam num elemento fundamental: a crença na possibilidade de superar o subdesenvolvimento sem romper com o capitalismo através de uma mudança no padrão de acumulação de primário-exportador voltado para fora, para uma acumulação urbano-industrial centrado no mercado interno, em aliança com setores da burguesia industrial considerada progressista e com interesses nacionais.

A possibilidade de uma industrialização periférica autônoma e emancipadora (de um ponto de vista nacional) era mostrado como a grande solução para os problemas do país em termos de emprego, baixos salários, miséria, pobreza, desigualdade etc. O Governo de Juscelino Kubitschek foi a maior expressão do otimismo da consciência ingênua sobre as possibilidades de um capitalismo autônomo na periferia.

- O mercado perfeito e a ideologia do crescimento econômico.

A partir dos anos 70 a contrarrevolução neoliberal mundial começa. Essa contrarrevolução conseguiu vencer as experiências de transição socialista no Leste Europeu e na URSS, acarretando uma das maiores tragédias sociais da história moderna, e na Europa Ocidental tomou a face de uma contrarreforma prolongada buscando destruir o Estado de bem-estar social. O consenso keynesiano é jogado fora e no seu lugar a ordem dominante abraça a ficção do mercado perfeito, eficiente e autorregulado. O neoliberalismo pode ser sintetizado em

As raízes da crise, afirmavam Hayek [teórico pioneiro do neoliberalismo] e seus companheiros, estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais (…). Esses dois processos destruíram os níveis necessários de lucros das empresas e desencadearam processos inflacionários que não podiam deixar de terminar numa crise generalizada das economias de mercado. O remédio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com bem-estar, e a restauração da taxa “natural” de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava reduções de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estagflação, resultado direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam tão desastrosamente deformado o curso normal da acumulação e do livre mercado. O crescimento retornaria quando a estabilidade monetária e os incentivos essenciais houvessem sido restituídos (ANDERSON, 1995, p. 10-11).

Em Nuestra América o neoliberalismo começou a ser aplicado pelas ditaduras militares do grande capital (como no caso do Chile), mas ganhou proporção de política continental nas transições conservadoras do ciclo militar-burguês à volta das democracias burguesas. No processo de volta à democracia [burguesa], se consolida uma divisão do trabalho importante: as ditaduras militares do grande capital trataram de banir o radicalismo político e teórico, expresso, por exemplo, nas reflexões da teoria marxista da dependência, e a democracia burguesa sob o neoliberalismo legitima e reproduz em nível superior a hegemonia escudada no terrorismo de Estado.

O neoliberalismo ao mesmo tempo que desmontou elementos importantes do desenvolvimentismo, como as empresas públicas, os pouquíssimos centros de pesquisa científica nacional e vários direitos sociais, prometeu um éden de desenvolvimento econômico e social através da retirada do Estado da economia, vista que este é ineficiente e perdulário, a concentração da ação pública nas áreas de direitos sociais  (saúde, educação, cultura etc.), e que o crescimento econômico per si iria resolver todos os problemas da “questão social” (IAMAMOTO, 2010).

Nesse período o léxico dos aparelhos políticos do imperialismo, chamados apologeticamente de organizações internacionais, como Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, passaram a chamar os países da periferia do capitalismo de em desenvolvimento ou emergentes Com uma operação ideológica, o Brasil deixava de ser subdesenvolvido e, segundo o presidente Fernando Henrique Cardoso, o “príncipe da sociologia”, passava a ser apenas um “pais injusto”[10].

O receituário para combater a injustiça? O crescimento econômico. Os aparelhos políticos do imperialismo, vários aparelhos ideológicos privados e os intelectuais da classe dominante criaram um mito de que não existe combate às desigualdades sociais sem um forte crescimento econômico e que esse crescimento só pode acontecer com liberalização dos mercados, desregulamentação estatal, austeridade fiscal permanente (menos para o gasto financeiro com juros e serviços da dívida) e privatizações que alarguem o papel das relações de mercado em toda regulação da economia.

Se índices de alfabetização, redução das desigualdades ou aumento de plantas industriais eram exibidas nos anos 50 e 60 (até durante a ditadura empresarial-militar!) como principais feitos de um governo, a partir dos anos 90, tudo estava condicionado a um centro estratégico e seus derivados necessários: o crescimento econômico é o principal objetivo a ser buscado e para isso é necessário garantir o combate à inflação, a confiança do investidor e a autorregulação do mercado.

Quando, nos anos 90, a resistência das classes populares ao neoliberalismo se intensifica, a classe dominante busca criar uma falsa alternativa ao bloco no poder neoliberal: o social-liberalismo. Essa ideologia procura demonstrar uma maior “sensibilidade” para as “questões sociais”, tematiza os problemas gerados com o padrão neoliberal de acumulação do capital e incorpora pautas de “esquerda” como ecologia, feminismo, antirracismo etc.  

Diante da crise conjuntural, que ameaçava parcialmente a hegemonia neoliberal em regiões do planeta, ideólogos de diversas instituições ligados às classes dominantes iniciaram um processo de revisão dos principais pontos do projeto neoliberal, sintetizados no Consenso de Washington. Surgiu com esta revisão ideológica do neoliberalismo o que pode ser chamado de social-liberalismo, uma tentativa político-ideológica das classes dominantes de dar respostas às múltiplas tensões derivadas do acirramento das expressões da “questão social” e da luta política da classe trabalhadora (CASTELO, 2012, p. 47).

O social-liberalismo é uma hábil forma da classe dominante de propagar a ideologia que irá orientar o domínio do bloco no poder e ao mesmo tempo forjar uma hegemonia sobre as classes e movimentos contestadores: é uma forma de mudar deixando tudo como está. O social-liberalismo toma como dadas e irreversíveis todas as contrarreformas neoliberais e advoga apenas relativo nível de mudança na política econômica e nas políticas públicas, prometendo, evidentemente, que essas tímidas “mudanças” serão suficiente para combater as expressões da “questão social”, e garantindo a) manter intocada o núcleo duro da padrão neoliberal de reprodução do capital; b) garantir a permanente exclusão das “questões estruturais”, a grande política dos de baixo, da ação política.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores, o PT, que nasceu com marca operária e socialista, tornou-se o principal operador do social-liberalismo e abraça o mito do crescimento econômico como ponto de partida fundamental, indispensável à distribuição de renda. Diz o PT
Um novo contrato social, em defesa das mudanças estruturais para o país, exige o apoio de amplas forças sociais que dêem suporte ao Estado-nação. As mudanças estruturais estão todas dirigidas a promover uma ampla inclusão social – portanto distribuir renda, riqueza, poder e cultura. Os grandes rentistas e especuladores serão atingidos diretamente pelas políticas distributivistas e, nestas condições, não se beneficiarão do novo contrato social. Já os empresários produtivos de qualquer porte estarão contemplados com a ampliação do mercado de consumo de massas e com a desarticulação da lógica financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econômico. Crescer a partir do mercado interno significa dar previsibilidade para o capital produtivo.
Resoluções do 12.º Encontro Nacional (2001). Diretório Nacional do PT (São Paulo, 2001, p. 38).

A consequência prática do social-liberalismo, além de um gigantesco desarme teórico, político e organizativo da classe trabalhadora e da massa dos explorados, foi possibilidade com que a classe dominante pudesse voltar ao neoliberalismo em sua face mais extremada com o Governo Temer.

A ideologia da industrialização, durante o desenvolvimentismo, e a ideologia do crescimento econômico no neoliberalismo, seja na sua fase neoliberal extremada ou social-liberal, foram uma expressão da hegemonia da classe dominante sobre os explorados, contudo, cabe pontuar questões importantes. A hegemonia além de não dispensar complexos e crescentes mecanismos de repressão e controle, normalmente vem associado a uma rede de compromissos materiais. A ideologia da industrialização na era desenvolvimentista trouxe “ganhos materiais”, isto é, redução do pauperismo absoluto para as classes trabalhadoras urbanas e segmentos médios, embora, é claro, não tenha revertidos os brutais índices de desigualdade social característicos do capitalismo dependente.

Da mesma forma, o ciclo social-liberal do PT trouxe um aumento relativo do consumo médio dos assalariados e uma redução do pauperismo absoluto e relativo, sem, de novo, alterar em nada a desigualdade social e a distribuição de renda e riqueza. Em ambos os casos, especialmente durante os governos de JK e Lula, o momento político é coberto de otimismo ingênuo, grandes “feitos”, aparentes transformações estruturais irreversíveis e no final se percebe que o país mudou, mas continua o mesmo[11].

Contudo, existe uma diferença significativa entre as ilusões social-liberais e desenvolvimentistas: enquanto a primeira significou um nível de cooptação e paralisia da classe trabalhadora ao ponto de, durante a maior ofensiva burguesa no século XX operada pelo governo Temer, a classe trabalhadora ter extremas dificuldades de realizar uma resposta política à altura; já no segundo ciclo, mesmo com uma orientação estratégica equivocada, a atuação política da classe trabalhadora conseguiu avançar a tal ponto de, segundo vários autores, provocar uma crise revolucionária e conseguir realizar algo nunca mais repetido na história brasileira: combinar um movimento de massa em ascensão com uma presidência reformista e sintonizada com esse movimento de massa (MARINI, 2012; GORENDER, 2015).

- Conclusões e desafios.

A “história do subdesenvolvimento latino-americano é a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial” (MARINI, 2012, P.47). Essa frase que abre o primeiro capítulo do livro Subdesenvolvimento e Revolução, de Ruy Mauro Marini, expressa uma conquista teórica fundamental da classe trabalhadora latino-americana e dos seus intelectuais: os problemas fundamentais da classe trabalhadora e da semi-soberania nacional do Brasil e dos demais países latino-americanos, não são devido a ausência de desenvolvimento capitalista, a permanência de relações pré-capitalistas no campo por muito tempo chamadas de feudais, ou a ausência de uma revolução burguesa de tipo tido como “clássica” ou jacobina (aos moldes franceses).

Não existe ausência ou pouco capitalismo na América Latina, mas uma forma de ser específica do capitalismo, uma totalidade integrada ao sistema mundial do capital; o capitalismo dependente brasileiro é tão capitalista quanto a economia dos EUA, porém, com determinantes histórico-estruturais, dinâmicas produtivas e papel na divisão internacional do trabalho diferenciada. Daremos a voz a dois clássicos autores latino-americanos que refletem com brilhantismo a questão

Nos marcos da dialética do desenvolvimento capitalista mundial, o capitalismo latino-americano reproduziu as leis gerais que regem o sistema em seu conjunto, mas, em sua especificidade, acentuou-se até o limite. A superexploração do trabalho em que se funda o conduziu finalmente a uma situação caracterizada pelo corre radical entre as tendências inerentes ao sistema – e, portanto, entre os interesses das classes por ele beneficiadas – e as necessidades mais básicas das grandes massas, que se manifestam em suas reivindicações por trabalho e consumo. A lei geral da acumulação capitalista, que implica a concentração da riqueza num podo da sociedade e o pauperismo absoluto da grande maioria do povo, se expressa aqui com toda brutalidade, colocando na ordem do dia a exigência de formular e praticar uma política revolucionária, de luta pelo socialismo (MARINI, 2012, p.63)

E
Proclamamos que este é um instante de nossa história no qual não é possível ser efetivamente nacionalista e revolucionário sem ser socialista; por outro lado não existe no Peru, como jamais existiu, uma burguesia, no sentido nacional, que se professe liberal e democrática e que inspire sua política nos postulados de sua doutrina (MARIÁTEGUI, 2010, p. 55).

A nossa revolução burguesa, isto é, o processo de transição ao capitalismo dependente e associado de forma subordinada ao imperialismo, repôs em termos diferenciados e com determinantes próprios a dominação da época colonial. Enquanto país dependente e dominado pelo imperialismo, transferimos valor para os centros dominantes do capitalismo, essa transferência de valor é “compensada” na acumulação interna a partir de um processo de intensificação da exploração sobre a classe trabalhadora, aumentando a massa total de mais-valor produzido, complexo social que Marini (2011) chama de superexploração da força de trabalho. A superexploração garante um padrão de acumulação viável mesmo com a transferência de valor e o aumento, o refinado crescimento, do controle dos centros imperialistas das economias periféricas – controle que cada vez mais assume a forma de comando dos fluxos financeiros e tecnologias de ponta.

A semi-soberania nacional, a transferência de valor, o papel subordinado na divisão internacional do trabalho e a superexploração da força de trabalho se combinam como determinantes ontológicos e elimináveis da forma capitalista dependente: o desenvolvimento do subdesenvolvimento gera mais subdesenvolvimento. E não é no nível de política econômica que se combate o capitalismo dependente, mas atacando as relações de produção capitalistas dependentes, ou seja, com a práxis política radical em transição ao socialismo.

Os países da periferia capitalista, diferentemente dos países centrais do capitalismo, comportam possibilidades reduzidas de pactos de classe redistributivos: a não existência de algo comparável ao Estado de bem-estar social na história da América Latina e no Brasil não é devido apenas a uma suposta incapacidade política das classes trabalhadoras em impor essa “vitória” à burguesia, outrossim, a questão é que é incompatível o “reformismo forte” e a superexploração da força de trabalho.

A superexploração do trabalho constitui, portanto, o princípio fundamental da economia subdesenvolvida, com tudo que isso implica em matéria de baixos salários, falta de oportunidade de emprego, analfabetismo, subnutrição e repressão policial (MARINI, 2012, p. 52).

Como bem colocou Lênin (2012), só se consegue reformas através da luta revolucionária – no capitalismo em geral -, e no capitalismo dependente em particular, essa assertiva leninista é mais precisa ainda: só é possível lograr reformas estruturais dentro de um processo de transição socialista.

As consequências práticas dessa compreensão crítica do desenvolvimento capitalista na periferia impõem um combate ainda mais engajado contra as formulações hegemônicas da ordem dominante sobre as possibilidades de “inclusão social” e “ascensão social” dentro da ordem através de políticas públicas. Combater, na teoria e na política, as formulações ideológicas que prometem responder às expressões da “questão social” sem tocar na propriedade e no poder, é parte fundamental da compreensão crítica do mundo e elemento indissociável da luta revolucionária, caso contrário, as classes dominantes serão vitoriosas, e elas não tem cessado de vencer.






[1] Sergio Lessa em Capital e estado de bem-estar: o caráter de classe das políticas públicas, Instituto Lukács, São Paulo, 2013, procura mostrar como o Estado de bem-estar não significou qualquer redistribuição de renda ou democratização do Estado burguês, embora seja uma mudança na vida dos trabalhadores comparado com o período histórico anterior. Os trabalhadores no seu cotidiano sentiam que viviam melhor – com um índice de desemprego menor e com maior acesso aos bens de consumo, por exemplo – embora fossem mais explorados.
[2] Sobre a categoria “questão social”, usamos a formulação da palavra de José Paulo Netto, acessado dia 12/04/2017, disponível em: https://pt.scribd.com/document/335439929/cinco-notas-a-proposito-da-questao-social-pdf
[3] Sobre o conceito de revolução anticolonial e sua utilização como chave de leitura histórica da dinâmica do século XX, conferir Domenico Losurdo, A luta de classe: uma história política e filosófica, Boitempo Editorial, 2015.
[4] Para a compreensão desse tema, conferir a obra de Losurdo acima citada.
[5] Não abordaremos as teorias abertamente apologéticas da ordem dominante, como a “obra” de W. W. Rostow e seu “as etapas do desenvolvimento econômico: um manifesto não-comunista”, pois nosso objetivo é mostrar os elementos conciliatórios com a ordem do capital dependente nas teorias que se alinham no espectro político da esquerda.
[6] A Cepal defendia, por exemplo, a reforma agrária como forma de alagar o mercado interno (MANTEGA, 1980). Celso Furtado em sua autobiografia, A fantasia organizada (1999), afirma que o Governo de Getúlio Vargas foi fundamental para manter a Cepal funcionando e que esse órgão sofria certo nível de oposição dos Estados Unidos.
[7] A tese de Celso Furtado parte do pressuposto de que a atividade agroexportadora, pelas suas características (monocultura, latifúndio e baixos salários), representa um poderoso obstáculo ao crescimento do mercado interno. A ênfase no problema da demanda desemboca na ideia da existência de um suposto “dualismo estrutural”, e esse tipo de interpretação, como se sabe, torna irreconciliáveis os interesses da burguesia industrial com os dos cafeicultores porque são colocados em posições divergentes quanto à condução da política econômica (ARRUDA, 2012, P.164).
[8] O Brasil de hoje atingiu um estágio de sua história marcado por um conflito que não se verifica com idêntica natureza na época de Justiniano, entre o esforço nativo de acumulação de capital e os titulares do latifúndio pré-capitalista, bem como do capital estrangeiro responsável pela exploração predatória de nossos recursos (RAMOS, 2016, P. 262).
[9] Por sua vez, esses latifundiários, juntamente com os grandes capitalistas brasileiros, estariam associados, segundo o PCB, ao imperialismo norte-americano, entregando a este as riquezas naturais do país, toda a produção de primários para exportação, e ainda deixando-o controlar as finanças brasileiras e nosso comércio exterior, bem como os meios de transporte e as fontes de energias (...). Sob essa ótica, a coligação feudal imperialista feria os interesses do grosso da população brasileira, desde os interesses dos trabalhadores da cidade e do campo, até os da burguesia industrial e comercial (MANTEGA, 1980, p. 161-162).
[10] Episódio citado por Nildo Ouriques, em entrevistada dada programa Justiça do Trabalho na TV, acessado em 11/04/2017, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nxjaviHsDao
[11] Uma análise de qualidade sobre a redução da pobreza e o aumento da desigualdade pode ser visto em Mota, 2012.


Referências
BRAZ, Marcelo. Partido e Revolução 1848-1989. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
IAMAMOTO, Marilda Villela. Serviço social em tempo de capital fetiche: capitalismo financeiro, trabalho e questão social. 4° Ed. São Paulo: Cortez, 2010.
IASI, Mauro Luiz. As metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento. São Paulo: Expressão Popular, 2006
LOSURDO, Domenico. A luta de classes: uma história política e filosófica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2015.
MARX, Karl; ENGELS, Fredrich. A ideologia alemã. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
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_____________. O Capital – crítica da economia política. São Paulo: Boitempo Editoral, 2013
_____________. Contribuição para a crítica da economia política. São Paulo Expressão Popular, 2008
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LOWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.
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NETTO, José Paulo. Nelson Werneck Sodré: o general da história e da cultura. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
FILHO, FC Leite. El caudillo – Leonel Brizola. São Paulo: Editora Aquariana, 2008.
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TONET, Ivo. Método científico: uma abordagem ontológica. São Paulo: Instituto Lukács, 2013.

ZAIDAN, Michel. Ensaios sobre teoria. Recife: NEEPD, 2012.

Um comentário:

  1. Oi! Teria como você disponibilizar o título dos livros dos autores que aparecem no artigo só com o sobrenome? Desde já agradeço.

    Petrópolis/RJ

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