segunda-feira, 1 de maio de 2017

28 de abril, a conjuntura e reflexões sobre a guerra de classe

Imagem do dia 28/04 em Recife
A “greve geral” do dia 28 de abril é mais que vitoriosa. Ela expressou uma vitória ideológica e política da classe trabalhadora sobre a classe dominante, seu governo e seus aparelhos ideológicos acerca do sentido das contrarreformas operadas pelo Governo Temer e o Congresso: a maioria da população compreende os ataques à previdência e a CLT como retirada de direitos, não como um mal necessário devido à “responsabilidade fiscal”. Essa batalha “simbólica” a burguesia perdeu.

O dia 28 também representou a volta de uma “greve geral” (que seria melhor caracterizada como paralisação geral), instrumento que a classe trabalhadora não usava há mais de vinte anos. Mais de 250 cidades registraram protestos de rua [1] e em alguns estados, como Pernambuco, tivemos mais de 150 mil pessoas na rua. A produção e a circulação de mercadorias e força de trabalho foi duramente afetada, e a burguesia fala em prejuízo econômico na ordem de 5 bilhões [2]. O dia 28 também conseguiu ir além dos funcionários públicos: rodoviários, metroviários, petroleiros, construção civil, metalúrgicos, aeroviários, trabalhadores dos serviços etc. Em cidades como Fortaleza, mais de 90% dos canteiros de obras foram paralisados.

A imprensa burguesa e o Governo Temer cumprem seu papel de minimizar os impactos políticos e econômicos do dia 28. Eles estão se auto enganando. O sucesso é evidente e surpreendeu bastante até os organizadores da paralisação. Evidentemente, o Governo Temer não irá recuar mesmo com o sucesso. Temer está comprometido com uma guerra de classe, e a lógica da “pressão parlamentar” não irá funcionar. É necessário derrotar totalmente esse governo num clima de radicalização política da classe trabalhadora e seus aliados quase pré-revolucionária. O máximo efeito que o dia 28 pode provocar no Governo Temer é estimular a retirada de partidos da base e atrasar a votação das contrarreformas, mas elas vão continuar na agenda, elas são a razão de ser do Governo Temer.

Também é extremamente ingênua a visão publicada no site Justificando [3], e compartilhada por vários jovens, de que só quando “quebrarmos tudo”, ou os protestos não sejam pacíficos, é que o governo Temer irá parar. Bem, de um ponto de vista econômico e político, a paralisação do dia 28 foi e é mais perigosa para o capitalismo que todos os atos de juventude que aconteceram de 2013 para cá e que tiveram ações diretas contra bancos, lojas de carro, shoppings etc.

Essas ações contém um simbolismo de revolta interessante e que não podem ser desprezados, mas ignoram que o centro da dinâmica da sociedade capitalista é a produção e a exploração da classe trabalhadora. Parar a produção, estimular a percepção do antagonismo entre patrões e assalariados, unir a classe em ações diretas típicas da classe operária (como piquetes em porta de fábrica e fechamento de garagens), agir politicamente sem esperar uma salvação da esfera eleitoral, é bem mais importante que as ações diretas contra bancos, típicas da juventude (mais importante não significa desimportância).

Prova disso é que várias empresas obrigaram seus funcionários a trabalhar mesmo sem qualquer possibilidade de lucro (na Conde da Boa vista, avenida comercial mais importante do centro do Recife, quatro lojas grandes, como a C&A, se mantiveram abertas até a saída do ato, 16h, mesmo sem qualquer chance de lucro) ou gastaram muito dinheiro para os trabalhadores não pararem: contratando ônibus para buscá-los em casa, por exemplo. Por que vários membros da burguesia fizeram isso? Com liberdade poética podemos citar Gramsci: esses burgueses deixaram seu interesse econômico-corporativo em prol do ético-político, ou seja, perceberam que é melhor perder dinheiro que ver a classe trabalhadora unida e atuando enquanto classe.

Os números divulgados giram em torno de adesão à paralisação e atos de rua com participação de 35 a 40 milhões de trabalhadores. Sabe o que isso significa? A classe trabalhadora voltou ao centro da cena política brasileira. A luta de resistência contra a PEC da MORTE, embora heroica com mais de mil estabelecimentos de ensino ocupados, foi uma luta da juventude, e principalmente por isso foi derrotada, agora a classe trabalhadora está no centro da cena histórica. Sua ação política, e só ela, pode reverter essa correlação de forças e responder à maior ofensiva burguesa em décadas.

Mas como diz o ditado, “tudo pode acontecer, inclusive nada”. A paralisação geral do dia 28 foi uma gigantesca demonstração de força. Mas existem vários problemas na continuação de uma ofensiva da classe trabalhadora até derrotar a burguesia e seu operador político, o Governo Temer. O primeiro problema é que os quase 20 anos de conciliação de classe produzidos pelo PT, CUT, PCdoB e cia não sumiram. Apenas começaram a ser superados e é um começo muito frágil. A classe trabalhadora precisará de forma rápida, ou melhor, acelerada, se rearmar política, teórica e organizativamente para derrotar o grande pacote de ataques. Podemos não conseguir completar esse processo a tempo e Temer e o Congresso obterem as vitórias que necessitam.

Outro elemento, esse já amplamente abordado em outros escritos, é que várias centrais sindicais não estão realmente interessadas numa radicalização política até as últimas consequências. A CUT e a CTB mantêm seu horizonte na dinâmica eleitoral e tem como principal interesse desgastar, e não derrotar, o Governo Temer, afinal, seria um céu de brigadeiro Temer operar todos os ataques, e um futuro novo Governo do PT, não ter que fazê-lo. Lula, em entrevista recente dada a CNB de Recife, disse que a reversão do “legado de Temer” só pode ser feita com maioria no Congresso: ou seja, caso as contrarreformas sejam totalmente aprovadas, Lula já se isenta de qualquer responsabilidade de conduzir uma luta nas ruas para derrubá-las.

A Força Sindical é base do Governo Temer, e as direções estão se mobilizando em defesa, essencialmente, do imposto sindical, ameaçado pela contrarreforma trabalhista. É transparente, contudo, que no caso da CUT, Força Sindical, CTB, UGT etc. existe uma pressão da base, uma efervescência política, que obriga as direções à luta mesmo a contragosto: uma postura totalmente recuada nesse momento seria um tiro no pé e a burocracia sindical sabe disso.

O quanto é possível operar o nível de radicalização política necessária com essas direções e o quanto a classe saberá agir por fora e contra as estruturas sindicais patronais e pelegas quando necessário é algo em aberto e que eu não arriscaria de forma nenhuma um palpite. De toda forma, o problema existe. Se o Governo Temer garantir a permanência do imposto sindical, por exemplo, o ímpeto de “luta” da Força Sindical se esvazia, se os índices de popularidade de Lula continuarem crescendo, a “saída eleitoral” fica cada vez mais palpável para CUT e CTB e uma greve geral por tempo indeterminado será descartada totalmente do horizonte – não à toa, diga-se de passagem, um dia antes ou após qualquer grande mobilização da classe trabalhadora, a imprensa burguesa divulga uma pesquisa eleitoral, hábil forma de canalizar as lutas e insatisfações para a esfera institucional.

Golpear juntos, mas marchar separado é algo fundamental. Garantir a máxima unidade nas ações, greves e atos de rua, mas combater a burocracia sindical, a influência da conciliação de classe e a lógica eleitoral como saída. Nesse sentido, a vitória da esquerda socialista – PCB, PSTU, MAIS e NOS – no sindicato dos petroleiros do Rio de Janeiro, um dos sindicatos operários mais importantes do país, é uma grande notícia. Mas é preciso avançar. Na unidade, sem romper a unidade, fortalecer ao máximo as oposições sindicais combativas e classistas e no processo de resistência aos ataques do Governo Temer acelerar a resistência do sindicalismo classista e garantir seu avanço sobre o sindicalismo de conciliação de classe e patronal – os panfletos, gritos, palavras de ordem, pichações, vídeos e artes de chamada na internet para os atos e todos os instrumentos de agitação e propaganda devem não perder de vista essa dialética fundamental: máxima unidade e máximo fortalecimento do campo classista e socialista.

Para concluir, duas reflexões. É uma tendência mais que evidente a militarização do Estado e da sociedade – fortalecida e acelerada no ciclo do PT (vamos lembrar da criação da Força Nacional de Segurança, Unidade de Polícia Pacificadora e Lei antiterrorismo, por exemplo) – e o aumento da repressão às lutas populares. Nesse momento, não é possível apenas recuar quando a polícia atacar, ou partir para enfrentamentos despreparados. Muito menos é possível organizar resistências anarquistas e de black blocs, sem qualquer coordenação e unidade com os movimentos de massa. A esquerda socialista e comunista, seus partidos, sindicatos e movimentos, precisam, para ontem, aprender com o Chile, Argentina, Grécia, Turquia ou França e organizar formas de resistência e enfrentamento da violência policial, para que a alternativa seja algo além de recuar e denunciar no outro dia a violência do Estado burguês – tarefa fundamental no processo de acirramento da luta de classe.

Outro elemento importante a refletir é que o ciclo de conciliação petista não formou uma cultura política só naqueles que aderiram à ordem burguesa, mas também nos que ficaram na resistência, na oposição. Note, várias organizações de esquerda se acostumaram por anos a fazer protestos sem qualquer base de massa, com pequenos grupos, compostos predominantemente por jovens universitários. Uma das maiores expressões disso é a atitude de grupos anarquistas em atos: normalmente não se organizam, não fazem trabalho de base, não disputam entidades de base, estão distantes dos trabalhadores como o diabo da cruz, mas, nos momentos do ato, acham que tudo é decidido ali e que a “radicalidade” vai compensar e substituir a presença das massas trabalhadoras.

Esses grupos, quando não conseguem realizar ação direta, ou quando conseguem e são “abandonados” por outras organizações, criticam apenas os “pelegos dos partidos”, mas nunca param para refletir o porquê das massas não os terem acompanhado e apoiado. Nos atos do dia 28, em várias cidades, como em Recife, muitas pessoas ficaram decepcionadas porque o ato não terminou com ação direta em algum órgão do governo, chegando a falar em derrota. A paralisação da produção, o comparecimento extremamente massivo da classe trabalhadora e o conteúdo classista das palavras de ordem, gritos e falas se torna detalhe, afinal, não tivemos nenhuma “ação direta” (como se parar a produção e trancar grandes vias e BR’s não fosse uma ação direta!).

Esse setor, acostumado com atos só de jovens, sem a classe trabalhadora, precisa compreender o quanto antes que parar a produção, unir a classe, potencializar o antagonismo entre patrão e assalariados e explicitar o caráter de classe do Estado burguês, e não só do Governo Temer, é algo mil vezes mais importante que terminar um ato quebrando algum palácio de governo. Nossa vitória maior não será quando todos os trabalhadores forem quebrar os palácios – embora isso seja importante e necessário -, mas quando eles conseguiram uma greve geral por tempo indeterminado, começar a ocupar as fábricas e garantir o máximo de solidariedade de classe nas lutas.


[1] –http://g1.globo.com/politica/noticia/protesto-contra-reformas-chegou-a-254-cidades-o-2-maior-numero-de-desde-2015.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=g1
[2] – http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2017/04/29/internas_polbraeco,592261/greve-geral-provocou-rombo-de-r-5-bilhoes-no-comercio-brasileiro.shtml
[3] – http://justificando.cartacapital.com.br/2017/04/28/porque-provavelmente-greve-geral-nao-fara-governo-temer-recuar/


Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI SUA OPINIÃO!
responderei.