terça-feira, 20 de junho de 2017

A política dos cargos: o triste fim do Campo Popular no 55° Conune

logo do finado campo popular.
O 55° Conune foi especial por muitos motivos. A UJC, fundadora da UNE, voltou com toda força a disputa da entidade, conseguiu ser a 11° força do Conune e a 2° maior bancada em termos de número de militantes da Oposição de Esquerda. O MAIS, um dos rachas do PSTU, também passou a compor a UNE e esse congresso foi um dos mais à esquerda dos últimos anos: nos debates, grupos de trabalho e plenária, o avanço quantitativo e qualitativo do campo da esquerda foi evidente.

Contudo, o fato mais marcante desse Conune foi a dissolução do Campo Popular, liderado pelo Levante Popular da Juventude (LPJ), que agora passa a compor a majoritária da UNE junto com a UJS, JSB e outras organizações. O LPJ, que sozinho conseguiu mais de 500 delegados para o Conune, construiu todo seu discurso na base numa política de oposição à majoritária (liderada pela UJS): críticas à falta de transparência na gestão da entidade, burocratismo, pouco contato com a base, falta de mobilização, etc.

Durante o Conune, fiz questão de conversar com vários militantes do LPJ, e o discurso era o mesmo: é “normal” fechar na plenária política a tese de conjuntura e educação junto com a UJS, afinal, temos algumas concordâncias programáticas com eles, mas somos oposição! Somos o Campo Popular! A possibilidade de compor a majoritária com a UJS era rechaçada por todos os militantes de base do LPJ que pude conversar. E para a surpresa de muitos, na plenária final, está o LPJ junto com a majoritária, dissolvendo o Campo Popular, e misteriosamente, esquecendo todas e cada uma das críticas que apresentava até sábado passado à UJS!

Por que isso aconteceu? Primeiro, vamos nos deter nas justificativas oficiais do LPJ. A principal afirmação é que o LPJ presou por uma unidade ampla em torno da Frente Brasil Popular que se expressa também no Conune. Nesse sentido, a unidade com a Majoritária seria resultado de uma conjuntura nacional maior e que conduz agora – agora e não antes, afinal, a Brasil Popular existe antes do 55° Conune começar! – a união imperiosa.  Com base nesse argumento, e único com o mínimo de consistência, os militantes do LPJ citam capítulos e versículos de textos clássicos, especialmente “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” de Lênin, fora de contexto e sem uma análise concreta da situação concreta.

O que dizer desse argumento? Bem, afirmar que no âmbito nacional existe unidade para disso deduzir que em todos e cada um dos espaços as forças da Brasil Popular devem compor juntas, e que não existe contradição alguma nisso, não faz sentido. Afinal, cada espaço em particular contém uma dinâmica própria, e é perfeitamente normal compor com uma organização numa frente nacional, e em espaços particulares não. O argumento de “estamos na Brasil Popular juntos”, logo, não é incoerência compor o mesmo campo na UNE.

Porém, não consegue explicar uma coisa simples e básica: para onde foi todos os argumentos do LPJ contra a UJS durante a tiragem de delegados em várias e várias universidades do Brasil? O LPJ descobriu só agora, no domingo, na plenária final do Conune, que compõe a Brasil Popular com a UJS? E como compatibilizar o discurso de “unidade contra o golpe” com a presença da JSB, juventude do PSB, um dos partidos articuladores do golpe? Ou colocando de outra forma a questão: agora a UJS é democrática, transparente e mobilizadora na gestão da UNE? Sob qualquer prisma que olharmos, a justificativa não se sustenta.

Em sua nota oficial, o LPJ afirma que o Campo Popular irá continuar agora dentro da majoritária, “fazendo a disputa por dentro”. Esse tipo de afirmação, de novo, nada explica. Se é possível existir um “campo popular” dentro da majoritária por que só agora isso foi dito? Por que nos processos de tiragem de delegados os estudantes, como os da UFPE, que votaram no LPJ não sabiam desse tipo de raciocínio? Como nenhuma justificativa “oficial” consegue se sustentar, cabe perguntar, qual o motivo real dessa aliança espúria. A resposta é simples: a política de cargos!

Rosa Luxemburgo classificou o oportunismo como a prática política de concessões e capitulações imediatas, afastando a tática da estratégia, renegando o “objetivo final”, o socialismo, em troca da política parlamentar de acordões, troca-troca, ganha-ganha etc. Os partidos socialdemocratas outra hora marxistas passaram a atuar na lógica de composição e conciliação com os partidos da ordem burguesa e operar política totalmente contrárias ao caminho do socialismo em troca de cargos e outros “ganhos” dentro do sistema político burguês.  A política de cargos, uma das manifestações do oportunismo, significa abrir mão do projeto, da coerência política, em troca de cargos em entidades; o papel na entidade não é um meio de fortalecer um projeto político, mas a lógica do projeto político é subordinada à conquista de cargos.

O LPJ abriu mão da sua linha política em troca da vice-presidência na UNE. Continuando no Campo Popular, o LPJ conseguiria a secretária-geral, junto com a UJS, lograr alcançar um “cargo mais alto”. Em troca do cargo, o LPJ deixa sua base sem resposta, abandona sua linha política e muda radicalmente o seu discurso de poucos dias atrás. É mais curioso ainda notar que no processo de tiragem de delegados nas universidades, o LPJ saiu em aliança em vários lugares com a UJR, maior força da Oposição de Esquerda da UNE, e ao final fecha com a majoritária: se isso não é oportunismo político, não sabemos o que é.

Esse exemplo do LPJ mostra a diferença entre uma oposição programática e uma oposição formal. A UJC, uma das maiores forças da Oposição de Esquerda da UNE, é oposição à majoritária liderada pela UJS e não existe qualquer possibilidade de união dessas duas forças. Por quê? Porquê entre a UJC e a UJS existe um abismo programático, tático e estratégico. Essas duas organizações têm concepções de educação, movimento estudantil e projeto político diferentes, antagônicos: enquanto a UJC defende o projeto de universidade popular, a UJS defende o fortalecimento dos grandes monopólios capitalistas da educação, por exemplo. Já a diferença do LPJ para a UJS sempre foi uma oposição formal, episódica, uma briga pelo controle de um aparelho estudantil. No programa, as diferenças são poucas, cosméticas. Essa igualdade programática era escondida pelo LPJ com um discurso oposicionista à UJS no M.E.


Agora, no 55° Conune, a prática finalmente se alinhou ao programa. No fundo, os que dizem que existe uma coerência da LPJ em se aliar com a UJS estão certos, mas não no ponto em que localizam: a coerência está em agora, e só agora, o LPJ assumir o que sempre foi: mais um apêndice do campo democrático-popular, uma das expressões do mesmo projeto das tendências do PT e da UJS. E nada como um bom cargo para revelar isso.  

4 comentários:

  1. Perfeita análise.
    O que acha da organização dos estudantes secundaristas?
    Me parece um exemplo de organização.
    Radical, pela base, horizontal, anti-sistêmico.
    Pela UNE não há espaço para a luta sincera de militantes dispostos a construir uma educação libertária, ou no mínimo radicalmente popular.
    Qual seria a saída?
    Abraços..

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  2. O único problema é você desconsiderar em sua análise a Articulação de Esquerda, e assim dizer que só existe a oposição de esquerda e a majoritária.

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  3. Articulação de Esquerda mantém a concepção do campo popular - fazer oposição a direção da UJS, sem cair no conservadorismo antipetista da Oposição de Esquerda!

    É importante relatar isso, pois a JAE tem um papel histórico no movimento estudantil de oposição da UNE.

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