segunda-feira, 10 de julho de 2017

Isto é “teoria da conspiração”: ensaio sociológico sobre o arrogante ingênuo

Advertência: esse texto contém um tom excessivamente irritado e agressivo e no limite pode ser considerado "arrogante". Esse tom é totalmente proposital e julgo ser necessário nesse tema para os "alvos" que quero atingir





Recentemente o Opera Mundi publicou um texto de autoria de Pablo Pozzi [1] que descreve o papel da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) na guerra cultural antimarxista e pró-imperialista operada na França. O texto, fartamente documentado com fundamento em documentos recentes que o próprio Governo dos EUA liberou devido a lei de informação do país, mostra como a CIA apostou no fortalecimento da direita, especialmente os “Novos Filósofos”, e nos pensadores chamados de “pós-marxistas”, como Foucault, Derrida e Lacan, na destruição de uma suposta hegemonia do marxismo e da perspectiva anti-imperialista na cultura francesa do pós Segunda Guerra Mundial – não vamos, no âmbito desse texto, debater se essa hegemonia existia ou não.

Depois da publicação do texto, um jornalista carioca [de esquerda] que é uma espécie de subcelebridade na internet, notadamente no Facebook (não citarei nome porque esse tipo de “pensador” não merece divulgação), publica uma “crítica” a matéria onde, ignorando olimpicamente todos os argumentos e fontes do autor, taxa o escrito de “teoria da conspiração”. O nosso jornalista “moderno” não liga mais para o “tradicional” debate sobre a importância de conferir as fontes na construção de uma narrativa e com uma arrogância que só a adolescência não superada ou a estupidez pode propiciar, etiqueta como “loucos” e “conspirativos” os que acreditaram na matéria.

Pessoas que acreditam na capacidade do ser humano tentaram alertar que a matéria estava citando documentos diretos da própria CIA e que não era possível dizer que apontar o papel da CIA na disputa e conformação da cultura francesa e mundial é “teoria da conspiração” se temos documentos primários da própria agência como prova. Inútil. O nosso jornalista continuou afirmando que essa “estória” não passa de mera teoria da conspiração e com habilidades historiográficas dignas de um “historiador” à la Laurentino Gomes ou Eduardo Bueno, passou a especular sobre como as “teorias da conspiração” casam com perspectivas de um “sujeito oculto na história”, quase o espírito absoluto hegeliano.

Esse exemplo de nosso colega jornalista com alergia às fontes me fez perceber como é comum se afirmar que “isso é teoria da conspiração” quando falamos da política cultural da CIA nos diversos países do mundo, da participação dos EUA na desestabilização de governos e projetos políticos (como a situação atual na Venezuela) ou quando mostramos a ligação de determinadas ONG’s, como a queridinha Human Rights Watch, com a dominação imperialista global. Não importa quantas provas ou exemplos históricos se levante para sustentar a tese, o “argumento” do “isso não passa de teoria da conspiração” é uma espécie de barreira na capacidade lógica do cérebro humano, quase um bug do milênio no raciocínio do sujeito. Vejamos mais de perto essa ideia.

A noção de teoria da conspiração considera, corretamente, diga-se de passagem, que temos que analisar a realidade com base nas provas, dados, indícios e tendências disponíveis e não projetar cenários falsos ou especular sem provas procurando nexos onde simplesmente não existe. Exemplo clássico de uma teoria da conspiração é a ideia de uma “conspiração global” dirigida pelos Illuminati (que, não esqueça, mataram 2Pac Shakur) com vistas a dominar o mundo ou as sempre lucrativas histórias de segredos fundamentais guardadas pela Ordem dos Cavaleiros Templários (a turma do “Santo Graal”). Além de render muito dinheiro para revistas de qualidade duvidosa, views no Youtube e assunto para o History Channel, essas histórias não tem qualquer base factual e não passam realmente de teoria da conspiração sem qualquer contribuição à compreensão do mundo que vivemos.

Agora vamos trabalhar com outro exemplo: a política cultural da CIA. A Agência foi criada como um aparelho do imperialismo para garantir sua dominação global atuando na luta de classe em escala geopolítica e em cada país particular buscando garantir o interesse dos monopólios estadunidenses (e consequentemente da ordem do capital) e combatendo qualquer tipo de projeto com traços de radicalismo político: nacionalista, comunista, nacional-popular etc. A CIA bem cedo percebeu que a guerra de classe não se faz apenas com violência – isso sem ler Gramsci! – e que é necessário manter a produção cultural e intelectual sempre dentro dos limites da ordem estabelecida. Para fazê-lo, além de operar o assassinato de intelectuais e líderes políticos, planejar e executar golpes de estados, devastar universidades e efetuar guerras econômicas, é necessário financiar intelectuais, universidades, revistas, jornais; projetar universidades e programas de pós-graduação; ajudar a ampliar programas de “intercâmbio acadêmico” etc. Podemos ver um exemplo dessa política nesse trecho:

As universidades enterraram as emoções, e seus membros buscaram opiniões ‘equilibradas’. Os antropólogos críticos documentaram numerosos antropólogos que se juntaram a outros cientistas sociais em empregos e projetos financiados por órgãos governamentais e não governamentais. Antropólogos trabalharam para a Agency For Internacional Development (AID), para a CIA, para a Advenced Research Projects Agency (ARPA) do Departamento de Defesa (...) e outras agências governamentais (Nader apud Lessa, 2013, p.60) [2]

Embora a CIA, na maioria dos casos, usasse ONG’s ou agências de financiamento a pesquisa, como a Fundação Ford e a Fundação Rockfeller, é de notório conhecimento há décadas essas linhas cruzadas de financiamento e muitas delas, inclusive, são de domínio público – o colonialismo cultural é tão forte hoje que não é mais chocante o departamento de Estado dos EUA influir diretamente na formatação dos programas de pesquisa das pós-graduações brasileiras via financiamentos através de programas de “cooperação acadêmica”; os nossos amigos de consciência ingênua, infelizmente, nunca se perguntam porque o reverso da moeda nunca acontece.

Esse padrão de ação da CIA, fartamente documentado e analisado, nos permite tomar como premissa que nesse momento, enquanto escrevemos essas linhas, a CIA continua atuando. A premissa se sustenta na simples constatação lógica na base da dinâmica real: a necessidade política imposta pela luta de classe do imperialismo manter as classes subalternas no limite da ordem e extirpar qualquer tipo de perspectiva revolucionária continua sendo uma necessidade objetiva de sobrevivência do imperialismo. Isso não significa que caso queiramos estudar concretamente um exemplo da política cultural da CIA num país ou numa instituição, estamos desobrigados a conseguir as provas necessárias a demonstrar essa ação. A premissa, mesmo correta, dado que ancorada numa análise histórica crítica, não anula a necessidade da comprovação empírica.

Análise histórica, explicação teórica do fenômeno e comprovação empírica ou factual se completam no fazer pesquisa sobre determinado processo social. O grande problema, porém, é que a CIA não é a vizinha fofoqueira da esquina e a maioria de suas ações são secretas e o tamanho e a dimensão de sua estrutura não é totalmente conhecida pelo público porque um dos fundamentos dos aparelhos de serviço secreto é o “Segredo de Estado” como essencial à “segurança nacional” (no Brasil não sabemos quem é agente da Agência Brasileira de Inteligência – ABIN –, por exemplo).  Pesquisar no terreno vivo da conjuntura, no aqui e agora, as ações do imperialismo através dos seus aparelhos de serviço secreto exige um esforço gigantesco na aquisição de provas e um papel maior da análise histórica na busca de encontrar um padrão de ação próxima da trama conjuntural e maior relevo da dedução; esse tipo de operação teórica, é lógico, envolve grandes riscos e pode induzir a erros,  especialmente quando se crê, por exemplo, que a CIA usa as mesmas técnicas em golpes de Estado que as praticadas nos anos 50. Isso induz a imaginar sempre golpes de Estado como golpe militar e não conseguir perceber o papel das chamadas “revoluções coloridas” na estratégia do imperialismo, levando a tristes e esdrúxulos episódios como organizações socialistas brasileiras saudarem levantes fascistas na Ucrânia ou pedir armas para o imperialismo na Síria – como se o complexo industrial-militar não desse conta de produzir todas as armas que precisa.

Contudo, é uma tentativa necessária. É impossível julgar corretamente a correlação de forças sem perceber o nível e a forma de relação dos monopólios capitalistas e do imperialismo estadunidense na luta de classe em escala global e em cada país em particular. Como, mesmo com as dificuldades, produzir uma análise crítica e que capte a realidade? Não existe uma fórmula a priori que garanta o sucesso da análise. Só uma crítica da investigação com base na observação histórica, fundamentos teóricos e dos dados disponíveis combinado com o acompanhamento sistemático do próprio desenrolar da conjuntura é que pode afirmar se o diagnóstico está correto ou não.

Mas o que fazem os nossos amigos que sempre dizem que tudo é teoria da conspiração? Se recusam a qualquer tipo de pesquisa e investigação séria, dão as costas a qualquer prova e argumento e se agarram a sua “explicação conspirativa” tal como José Sarney é agarrado ao Estado burguês. Sempre dispostos a duvidar até da existência do imperialismo – afinal, estamos numa era pós-moderna - esses senhores não creem, por exemplo, que existe uma “guerra econômica” operada pela classe dominante “interna” da Venezuela e pelo imperialismo, afinal, foi o “Governo” quem disse, mas creem, como um fundamentalista religioso, nas versões do The New York Times, The Economist, CNN, El País, The Wall Street Journal, etc.

O inglês é uma espécie de som hipnotizador para seus ouvidos. De pronto cobram coerência da esquerda e a condenação da “violação dos direitos humanos e da democracia” em Cuba, Coreia do Norte ou Venezuela (esperar um debate sobre os conceitos de democracia e direitos humanos desses senhores é demais) e repudiam o autoritarismo – esse conceito supremo da “obra” de Fernando Henrique Cardoso. No mundo capitalista, tudo é mercantilizado e monetarizado, mas a ideologia dominante consegue imbecis que atuam como polos reprodutores do seu programa político sem receber absolutamente nada: é a era da vassalagem gratuita.

Em datas comemorativas, como o 11 de setembro ou 1 de abril, lembram do golpe de Estado que derrubou Allende e a Unidade Popular no Chile e Jango e o Trabalhismo no Brasil. A história para esses senhores é como batatas amontoadas num saco: um mero saco de batatadas. Incapaz de compreender os processos históricos, aprender o sentido dos “acontecimentos”, acumulam datas e “narrativas” como se fossem histórias infantis e falam de golpes de Estado como o do Chile como um passado distante, uma realidade medieval, quase as Crônicas de Nárnia: a era do golpismo é passado, afinal, a Guerra Fria acabou!

Julian Assange pode arriscar sua vida para revelar documentos secretos à vontade, e Eward Snowden desnudar partes significativas da rede mundial de espionagem da NSA (outra agência de inteligência e espionagem dos EUA), Bush mentir com a conveniência da CIA, FBI, Departamento de Estado, Senado e Forças Armadas dos EUA sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque, acontecer golpes de Estado com escancarada participação do imperialismo na Venezuela em 2002, Honduras em 2009, Paraguai em 2012, Haiti 2004 e a falsificação eleitoral no México; nada disso atrapalhará as certas firmes como as rochas do Himalaia de nossos arrogantes ingênuos.

Sou muito tentado a responder a esse tipo de arrogante ingênuo com apenas um sorriso de canto de boca e o total desprezo, mas, na batalha das ideias, temos que disputar todas as consciências dos que não sejam da classe dominante. Contudo, adianto que é necessária toda paciência do mundo para travar esse tipo de debate, posto que, os sujeitos que reproduzem esse tipo de “raciocínio”, embora totalmente controlados pela ideologia dominante, se acham o ápice do livre-pensar e quando não citam algum capítulo ou versículo de Nietzsche para mostrar o quanto são “espíritos livres”.

Já com organizações políticas que reproduzem esse tipo de “lógica”, o conselho é outro, mas por questões de polidez política terei que dizê-lo de forma indireta: a organização que não consegue avançar minimamente na superação de aspectos básicos da ideologia dominante nunca será capaz de oferecer um programa político com potencialidades reais de superação da ordem do capital e estará condenada à lata do lixo da História, e no lixo, até onde sei, só vivem vermes, ratos e baratas.

[2] – Capital e Estado de bem-estar social – Sérgio Lessa, Instituto Lukács.


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