segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Os cipaios da esquerda brasileira e a questão venezuelana

Robert Serra, líder chavista assassinado como tantos

Cipaios eram os soldados indianos que serviam no Exército da Companhia Britânica das Índias Orientais, sob o comando dos oficiais britânicos. Traíram seu povo, sua história e sua cultura e operaram como instrumento da máquina de guerra do colonialismo inglês. Aproveitaram com sorriso cínico o discurso do colonialismo que afirmava levar a civilização e o desenvolvimento para a Índia atrasada, bárbara e não cristã. O comportamento de organizações, intelectuais e personalidades da esquerda brasileira, na questão da Venezuela, só pode ser comparado a dos cipaios indianos.

 Em dezembro de 1998 um ex-militar chamado Hugo Chávez vence a eleição presidencial na Venezuela e assume o governo em 1999. Nessa época, o capitalismo mundial ainda dançava inebriado pela música da contrarrevolução. A URSS tinha sido derrubada, não existia mais “campo socialista” e movimento terceiro mundista, Cuba e Coreia Popular passavam pelo pior momento de sua história de transição socialista, a China se recolhia numa defensiva estratégica e trilhava seu tortuoso caminho de “Reforma e Abertura”, a esquerda revolucionária da América Latina tinha sido destroçada, a Revolução Sandinista posta de joelhos pelo imperialismo e o neoliberalismo dominava feliz nosso continente. Era o momento da história onde a ideologia pensava ter feito um acordo com a realidade e realmente estávamos no fim da história!

Foi justamente nessa época quando era proibido sonhar que um militar ousou falar de soberania nacional, democracia de fato, igualdade social, anti-imperialismo, Pátria Grande, Revolução e posteriormente: o socialismo. Com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela começa uma virada histórica na América do Sul. Nunca é demais lembrar-se que graças a Revolução Bolivariana comandada por Chávez, Cuba pôde voltar a respirar, a ALCA foi enterrada, surgiram mecanismos de integração continentais nunca vistos, como ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), TeleSUR e quando o Governo da Venezuela decidiu nacionalizar o petróleo, impondo um controle nacional na PDVSA (a Petrobras dos venezuelanos), o imperialismo teve que lembrar que ainda corria sangue e coragem nas veias dos povos da periferia

O impacto do bolivarianismo foi gigante. Os processos políticos na Bolívia e Equador foram influenciados pelo exemplo de Chávez e seu povo. Em vários países da América Latina, como Peru e Honduras, uma esquerda popular e nacionalista com disposição para enfrentar o imperialismo, voltou a ganhar força e quase conquistou o governo e um consenso majoritário. Na Europa, intelectuais faziam peregrinação para conhecer esse incrível povo insurgente. Anos depois, forças políticas, como o “Podemos”, da Espanha, surgiram reivindicando abertamente o exemplo da democracia protagônica da Venezuela. Intelectuais festejados, como David Harvey e Boaventura de Souza Santos, vieram na Bolívia e Venezuela aprender com a experiência de luta desses povos. A auditoria da dívida no Equador reascendeu o tema da dívida odiosa na periferia do capitalismo e tempos depois, foi um exemplo na auditoria da dívida grega. Assim como na época auge da Teoria Marxista da Dependência, a Europa vinha buscar as luzes na América Latina.  

Longe desse movimento político como o imperialismo da verdade (alguns já esqueceram-se das “armas de destruição em massa” que o Iraque supostamente teria...), a imensa maioria da esquerda brasileira continuou seguindo seu caminho. Aqui não chegou a TeleSUR, o debate sobre o nacionalismo popular e revolucionário, o pensamento crítico latino-americano, o resgate do legado de Símon Bolívar e dos Libertadores da América (nada mais que o nome de um campeonato de futebol dominado pela Rede Globo) ou a revolução na comunicação popular que Chávez e Evo Morales, em especial, criaram.

O nível de ignorância das vanguardas brasileiras sobre o que acontecia em nossa América foi tão grande que o debate sobre o novo constitucionalismo latino-americano era tema de massas em muitos países e aqui, objeto de reflexão de alguns poucos acadêmicos. Aliás, a situação beirou o ridículo: a interpretação de Boaventura do novo constitucionalismo fez mais sucesso que os autores, movimentos sociais e partidos políticos que eram construtores do processo de “Refundação do Estado” e erguimento da “democracia protagônica”.

Enquanto as taxas de crescimento do PIB eram gigantescas e o imperialismo não tinha conseguido imprimir golpes mais duros nas experiências bolivarianas, como a superficialidade típica da lógica parlamentar, algumas personalidades e partidos reivindicavam Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correia. Sem qualquer estudo sistemático do pensamento crítico de nosso continente, a história desses países e os significados mais profundos do bolivarianismo, tudo na citação de números e dados. Felizes e alegres continuamos consumindo o europeu da moda e importando noções e categorias dos Estados Unidos através dos gordos financiamentos da Fundação Ford e Rockfeller.

Com exceção do golpe contra Hugo Chávez em 2002, tão escandaloso que foi impossível fingir que nada estava acontecendo, a maioria da esquerda nunca olhou para os bloqueios e sanções econômicas, atentados, atos de terrorismo, assassinatos políticos, pressões diplomáticas, locautes, manobras geopolíticas (como forçar uma baixa no preço do petróleo para colocar de joelhos a Venezuela, Rússia e Irã) e outras coisas que existem no mundo real.

Aliás, essas coisas que existem no mundo real, na cabeça de muitos cipaios de nossa esquerda, são coisa do passado. Assunto de livros de história. O grande antropólogo Darcy Ribeiro, na sua obra magna, “O Povo Brasileiro”, escreveu na época em que estava na moda o tema da “democracia como valor universal” que era difícil achar esse tipo de teoria crível, afinal, na história brasileira, os mais tímidos projetos reformistas de conteúdo nacional, como o Segundo Vargas e João Goulart, foram derrubados. Tratando o ciclo de ditaduras militares do grande capital como coisa do passado e o golpe de Pinochet no Chile como um evento do Paleolítico (às vezes tenho impressão que não existe mais a CIA), toda denúncia de tentativa de golpe de Estado, “guerra econômica”, terrorismo e sabotagem tem que ser tratado como um delírio conspirativo do governo bolivariano.

Nada falaram do assassinato de Robert Serra e centenas de outros militantes chavistas; nem das Guarimbas; muito menos do atentado contra a Suprema Corte; falar dos vários casos de alimentos e remédios estocados em galpões pela burguesia? Nem pensar. E o atentado com drone para matar Nícolas Maduro? Tema proibido. Como o escravo da Casa-Grande do filme do Django Livre, esperam o seu senhor, os monopólios de mídia, falarem algo para, a partir desse momento, fazer algum comentário. Quando os monopólios de mídia dizem que algum opositor foi perseguido, correm para ecoar sua voz, reprovar o “autoritarismo” e se dizer democráticos. Como os monopólios de mídia nunca vão oferecer destaque para assuntos como as sanções econômicas para asfixiar a economia, esse tema nunca será objeto central para grande parte de nossa esquerda.

A ausência de autonomia intelectual e política cresce a cada dia. Até pesquisadores de qualidade, conhecidos por sua produção científica, esquecem o básico do pensar científico e lembram os tios conservadores que acreditam nas correntes do WhatsApp. A socióloga Esther Solano, pesquisadora que ganhou muita notoriedade pública nos últimos tempos com suas pesquisas sobre a extrema-direita e o ódio na política, publica em sua página pessoal no Facebook que é inaceitável não condenar o “regime Maduro” (sic) porque ela foi em Roraima, conversou com meia dúzia de venezuelanos e todos eles, segundo a sociológica, eram críticos do governo. Sancta Simplicitas! Agora sabemos que caso um gringo venha ao Brasil, converse com alguns fãs de Bolsonaro que lhe digam que o Brasil era socialista nos tempos do PT e que agora o Capitão está colocando ordem na casa e não tem qualquer relação com o fascismo, a verdade dos fatos seria-nos revelada.

Uma pena que na minha graduação e mestrado eu não descobri esse incrível método de análise científica. Enquanto Luciana Genro, Gregório Duvivier, Jean Wyllys, El Pais, The Intercept, Carta Capital e mais um monte de personalidades da “esquerda” seguem deixando claro sua qualificação para secretário da OEA, o glorioso Ministério das Colônias, como chamava Fidel Castro, a Colômbia, o país que mais viola os direitos humanos na América do Sul ao lado do Brasil, segue tranquila sua marcha de extermínio contra os membros da Força Alternativa Revolucionária do Comum... E está tudo bem. Isso não é pauta nos monopólios de mídia. E a Colômbia é aliada dos EUA – todos os seres civilizados sabem que só existe repressão em países sem aliança com o Grande Irmão do Norte.

Uma famosa frase atribuída ao caluniado Paulo Freire diz que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. Eu só espero que não façam isso de graça e que cobrem caro. Afinal, ser um comentador da luta de classe totalmente dominada pelo liberalismo, a ideologia dominante e o eurocentrismo, no final das contas, deve dar algum trabalho. E de precarização do trabalho, já temos a contrarreforma trabalhista e a terceirização irrestrita; não queremos que os nossos cipaios ganhem mal. Aqui no Brasil, diferentemente da Venezuela, acabar com a aposentadoria está na ordem do dia. É preciso guardar um pé de meia logo agora.  

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