sábado, 22 de junho de 2013

A Débâcle das ciências humanas e os protestos no Brasil.

É de conhecimento universal que o objeto de estudo das ciências humanas seriam as relações humanas e a “sociedade”. As várias divisões departamentais do conhecimento, como a Antropologia, História, Sociologia, Ciência política, Filosofia e etc. representariam apenas “anglos de visão” diferente de um mesmo objeto. Não vou entrar no mérito dessa visão, fundamentalmente positivista,  eu, como bom marxista que sou, concebo o conhecimento das humanas como uma ontologia do ser social – que entende a realidade como uma totalidade complexa com suas diversas mediações – cujo método de apreensão dessa realidade é o materialismo histórico. O que quero comentar aqui rapidamente é a falência de vários estudantes de ciências humanas para compreender minimamente os protestos que assolam o Brasil há alguns dias.
Ficou claro que quando os protestos começaram – tradicionalmente puxados por partidos e movimentos sociais de esquerda – que poucas pessoas esperavam as dimensões que eles tomariam (muito menos eu), mas depois do terceiro protesto em São Paulo ficou claro que um fenômeno social novo está  a nossa frente. As redes sócias, como o Facebook, foram tomadas por manifestações inauditas de apoio aos manifestantes: condenações das tradicionais ações violentas da polícia e mais tradicionais ainda manipulações dos monopólios de mídia. O número de protestos só fez crescer, o apoio popular também – até culminar na curiosa enquete de José Luiz Datena, link: http://www.youtube.com/watch?v=7cxOK7SOI2k -, depois disso, combinado com uma mudança de atitude dos monopólios de mídia, com medo da ação das redes sociais mostrando suas manipulações e não querendo ir contra a maioria da população, passou a apoiar os protestos, o Brasil viveu uma “onda subjetiva” de apoio aos protestos. De uma hora para outra, como um vírus, pessoas que nunca ligaram para política estavam debatendo o assunto. Falando sobre democracia, repressão, corrupção, lutar pelos seus direitos. Foi o assunto das redes sociais. As manifestações cresceram de maneira assustadora. Combinando uma ação quase uniforme e coordenada dos monopólios de mídia com a adesão heterogenia de vários elementos sociais, as manifestações tomaram outros rumos, agregaram novas pautas, ganhando nova fisionomia (muito nacionalista, ufanista e com leves traços fascistas que estão, no momento da redação desse texto, em franco crescimento), afim, tornando-se algo diferente do que se iniciou.
Até aí não estou escrevendo nenhuma novidade. Qualquer pessoa que acompanhou o desenrolar da história tem plenos conhecimentos do que escrevi acima. O que quero mesmo comentar é a postura de vários colegas, estudantes de ciências humanas, que aderiram aos protestos. É notório que as ciências humanas vivem uma onda de despolitização que pode ser mais ou menos rastreada dos anos 70 em diante. As teorias pós-modernas que advogam um niilismo (em sua maioria) que na prática anula a possibilidade do conhecimento das relações humanas, que resumem todo arcabouço teórico a uma construção discursa – não contendo as teorias fundamentos ontológicos -, a moda culturalista que dominou a história e a sociologia (principalmente) e a perspectiva Micro: as micro-teorias, micro-narrativas e etc. em detrimento das teorias globais, da perspectiva da totalidade, podem ser postulados como fundamento dessa despolitização das ciências humanas. Além disso, não podemos esquecer que a “morte” de uma variante do marxismo ligada a terceira internacional e a crise do socialismo soviético também tem sua contribuição nesse processo.
O fato é que tornou-se moda pesquisar alguma manifestação cultural numa cidade interiorana, de preferência uma bem pequena e bem esquecida no meio do mapa ou pesquisar manifestações religiosas, também de preferência as mais incomuns. Também voltou a ser moda a ética e uma perspectiva institucionalista na teoria política (veja sucesso de Habermas, por exemplo), retornos idealistas também são bastante comuns e na questão dos movimentos sociais se privilegia os chamados “novos sujeitos sociais”, como movimento LGBT, feminista, negro e etc.
Pois bem, nesse quadro de coisas, desde que entrei na universidade me deparei com uma onda pós-moderna no curso de história. Professores que falavam mais de literatura do que de quaisquer outras áreas do conhecimento, outros diziam que a estética do texto é mais importante que o conteúdo, outros afirmavam que história é apenas uma construção discursa (na melhor das afirmações, guiados por Foucault, alguns afirmavam que é uma construção discursa de poder, que visa à dominação) e grande parte dos meus colegas não queriam saber de política, economia, relações de poder e nada correlato. Nietszche é o cara, a literatura uma rainha e a análise do discurso a cereja do bolo.
Esses mesmos colegas, influenciados por um ambiente societal despolitizado, como é o atual do Brasil, e sujeitos a todas essas influencias epistemológicas, tomaram aversão à política, protestos, partidos, estudos de relações de poder e etc. (a origem de classe também tem muito haver com isso). Quando a já aludida “onda subjetiva” de protestos tomou conta do Brasil vi muitos desses colegas na rua. O grande problema é que eles, que estudam a sociedade, não entendiam o mínimo do que se passava a sua volta. E esse é o problema. Vi vários colegas defendendo coisas como: “esses protestos são do povo, não precisamos de partidos”. Vi colegas dos cursos de ciência política e ciências sociais defendendo isso. É mais que patente um grave erro político. Até o mundo mineral sabe que nos processos institucionais da democracia o partido político é o elemento de mediação privilegiado. É o mediador capaz de colocar um programa político em ação. Além disso, a ideia de “protestos do povo” mostra que alguém sinceramente acha que “o povo” é um ser dotado de existência real. Não existe “o povo”. Existe classe, grupos de interesses, movimentos sociais e etc. O povo é uma mera abstração baseado num universalismo jurídico-abstrato que considera todos os membros de uma Estado-nação como cidadãos, mas que na prática “esconde” desigualdades e interesses bastante reais. O povo congrega o morador do espinheiro, burguês, com o morador do Jordão, proletário explorado, que tem interesses diferentes. No capitalismo não se pode agradar todas as classes, mesmo nos melhores ciclos de expansão do capital.
Até aí, isso não é tão grave. Alguém pode argumentar que isso é resultado do cansaço com os partidos no Brasil. Mas esse não é um caso isolado. Vi colegas que diziam “abaixo à corrupção”, “Dilma ou você tira o Renan ou tiramos você”, “contra a PEC 37”, “pelo fim da corrupção” e etc. Não vou entrar no mérito da validade ou legitimidade de pessoas que nunca ligaram para política e para causas sociais virarem guerreiros de rua de uma hora para outra. Antes tarde do que nunca. Mas me pergunto que tipo de intelectualidade estamos formando. Como uma pessoa que está na faculdade não sabe que a presidenta da república não pode destituir o presidente do senado. Como pessoas do curso de ciências sociais usam cartazes assim. A rigor, a própria saída de Renan Calheiros não muda nada. A lógica do sistema político brasileiro continua o mesmo. O PMDB escolhe outro presidente do senado e tá tudo certo. Vi vários cartazes “mandando” Dilma tira Renan do cargo. Isso é assustador. Assustou-me mais ainda os vários protestos contra a PEC 37 – que pelos cartazes ficava nítido que a maioria nem sabia o que era. Também dizeres como: “estamos mudando o país”, “esse protesto é histórico”, “vem pra rua mudar o Brasil”, “ou para a roubalheira ou paramos o Brasil” e etc. Mostram o grau de despolitização e ignorância política da maioria das pessoas no protesto de Recife. A Folha de São Paulo numa pesquisa divulgada ontem mostrou que nos protestos de São Paulo 78% das pessoas tem curso superior. Em Recife eu acho que esses números são parecidos. Acompanhei atentamente pelo facebook e no protesto do Recife a postura dos alunos da UFPE e em especial do CFCH, e posso afirma sem medo de errar que a maioria estava nos protestos sem entender minimamente da política nacional. Colocando várias pautas genéricas, muitos pedindo fora Dilma, outros tanto vestidos com a bandeira do Brasil num clima de ufanismo que parecia mais carnaval do que um Protesto de indignados.
Eu seria leviano se coloca-se a culpa dessa postura despolitizada de muitos alunos das ciências humanas apenas as concepções epistemológicas dominantes na atualidade. É claro que a coisa é mais profunda e complexa do que isso. Mas também me parece claro uma relação entre essas duas tendências. É perturbador ver pessoas que estudam “as relações humanas e a sociedade” e não entendem nem a divisão institucional dos poderes. Pessoas que acham que o simples fato de se ir às ruas vai “mudar o país”, ou acharam que o orçamento do governo é um cofre sem fundos. Usando cartazes com os dizeres: “o problema não é Copa. Se investir na Copa o mesmo que na educação e na saúde tá tudo bem”. A muito me é assustador ver colegas que não entendem minimamente o que acontece no seu país. Mais assustador ainda é ver que as ciências humanas estão perdendo sua capacidade de explicar à realidade – e consequentemente transformá-la – a maneira ingênua, despolitizada e primária que deram a tônica das adesões à “onda subjetiva” e aos protestos de rua (o protesto em Recife pareceu um carnaval fora de época) me faz pensar: se as ciências humanas não fazem mais seus estudantes entenderam minimamente as relações que os cercam, principalmente as de poder, que em última instância decidem o destino da coletividade, para quê elas servem?

Não quero com esse texto me achar superior ou dono da verdade. Quero apenas provocar um questionamento. Nos últimos protestos no Brasil mostraram que nem só de cultura e do Micro vive o homem. Se nos dedicamos a uma ciência social que não explica o social tem algo errado com essa ciência ou com a concepção de ciência que temos. Não se transforma nada sem compreender. Não se compreende nada sem um arcabouço teórico adequado. Se estudantes de humanas se mostram na cena política como cordeirinhos – prontos para serem manipulados por pauta conservadoras - temos que repensar imediatamente que tipo de conhecimento produzimos e aprendemos. Afinal, com estética, análise do discurso (nada contra, apenas por si só não é suficiente) e com literatura (nada contra a literatura) não se entende o real e muito menos  o modifica.