quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O autoritarismo e sua outra face ignorada: ensaio sobre liberdade e democracia interna numa organização político-partidária.



Escrever sobre liberdade e democracia interna na dinâmica de uma organização político-partidária é um tema difícil. As dificuldades, a meu ver, assentam-se, em especial, em dois elementos: a) a falta de qualificação das categorias usadas na discussão, como, por exemplo, o que é liberdade e democracia interna; b) a série de lugares-comuns e vulgatas que rondam o tema: como reduzir qualquer forma de disciplina interna a manifestação do “stalinismo” ou da burocratização da organização.

O objetivo desse texto é discutir sem qualquer pretensão de novidade temas como liberdade e democracia interna na organização político-partidária, contudo, teremos um foco de direcionamento na escrita: nosso debate terá como central a quebra da liberdade e da democracia interna através de práticas individualistas/personalistas e competitivas, considerando que essas práticas são bastante comuns, mas recebem menos atenção que o seu reverso-gêmeo: o autoritarismo e a ausência de debates democráticos.

Antes de entrarmos no debate propriamente dito sobre liberdade e democracia interna, faz-se necessário tecer algumas considerações sobre os modos de sociabilidade e subjetivação no capitalismo, como eles condicionam os militantes e como esses processos se objetivam nas organizações de esquerda.

A tese fundamental do materialismo é que não é a consciência dos seres humanos que determina o seu Ser, mas ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.  “O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral” (Karl Marx). A sociabilidade capitalista é ontologicamente constituída pela concorrência e pelo individualismo; somos subjetivados – como diria os estudantes de psicologia – a nos percebermos como sujeitos autoconstituídas e que atuam livremente de acordo apenas como o imperativo de nossa consciência e interesses; e a desenvolver processos constantes e cada vez mais brutais de competitividade e disputa com o próximo.
              
           Todos os momentos de nossa vida são constituídos pela competitividade e o individualismo: escola, faculdade, emprego, relações amorosas etc. – pensem, por exemplo, no vestibular. Esses processos de socialização moldam nossa subjetividade e criam uma dificuldade enorme de trabalharmos conjuntamente de forma a colocar o interesse coletivo acima do individual e a realizar práticas de cooperação solidária, isto é, processos de interação não pautados na competitividade e na concorrência – foi por compreender isso que Ernesto “Che” Guevara dedicou tanta atenção à transformação das formas de consciência e da cultura no processo de transição socialista em Cuba, no esforço homérico de criar o “homem novo”.

As organizações de esquerda que se reivindicam socialistas ou comunista têm, portanto, uma difícil missão: forjar um novo mundo com as pessoas subjetivadas nas formas de consciência capitalista. Evidentemente que antes do início da construção socialista com a conquista do poder, temos um longo percurso de organização e luta, e as organizações de esquerda revolucionária procuram gerar espaços de socialização que já tentam criar uma nova cultura e práticas de interação social, combatendo os valores e práticas burguesas.

A conclusão que podemos tirar do exposto acima é que as organizações revolucionárias da esquerda têm uma missão permanente dentro da sociedade capitalista: lutar para que sua organização e seus militantes não reproduzam as piores práticas da sociabilidade burguesa, nesse caso em específico, o individualismo/personalismo e a competitividade.

No Brasil, em grandes linhas, temos dois modelos básicos de organização político-partidária: as regidas por centralismo-democrático (PCB, PCR, PSTU, etc.) e as organizadas por tendências (PT, PSOL, etc.). Com base numa leitura um tanto simplista da história do Partido Bolchevique da Rússia, crer-se que esse modelo organizativo impede o debate interno, a livre expressão de divergências, restringe a democracia interna e a liberdade e no limite acaba criando as condições para o surgimento de uma casta burocrática que se apodera do partido e destrói toda discussão política e criatividade.

Outra crítica bem comum é que o modelo do centralismo-democrático acaba facilitando o autoritarismo dos dirigentes e anula a individualidade dos membros da organização. Embora de forma um tanto caricatural, muitas dessas críticas, tem alguma razão de ser. Como tratamos acima, estamos inseridos num modo de subjetivação que reproduz como elementos inerentes a competitividade e o personalismo, e essas práticas sociais, se dominantes numa organização, propiciam que o partido deixe de ser um instrumento político de efetivação de um programa revolucionário coletivamente construído para tornar-se uma máquina burocrática de conceder privilégios (tanto materiais como simbólicos) e garantir o interesse individual ou grupistas dos seus dirigentes.

As críticas ao surgimento do autoritarismo e do burocratismo em partidos com base no centralismo-democrático, reais ou imaginárias, são bem conhecidas e não precisamos nos estender nelas. Queremos chamar atenção para o reverso da moeda: a quebra da democracia interna e da liberdade através do individualismo/personalismo e da competitividade entre os membros do partido. Para isso, contudo, vamos antes escrever poucas linhas sobre o que é um partido e conceituar minimamente o que entendemos por democracia interna e liberdade.

Um partido revolucionário é organização política formada por militantes que expressam um programa político de transformação global de toda sociedade e procura ser o dirigente político-ideológico das classes trabalhadoras e camadas médias. Esse partido se diferencia do movimento social por seu programa de transformação e sua ação política que abarca (ou tenta abarcar) todos os aspectos da vida social. Os militantes desse partido pactuam uma espécie de acordo entre si sobre como funcionará esse partido (estatuto e modelo organizativo) e qual será o programa político e sua estratégia e táticas de aplicação (resoluções congressuais e decisões conjunturais da direção).

A direção e a base não formam dois elementos hierarquicamente dissociados, mas são partes de um todo orgânico com funções diferentes: a direção é responsável por conduzir a operacionalização da política da organização de acordo com as deliberações congressuais e a forma regimental do estatuto; a base por aplicar a política que também emana das resoluções congressuais e dos documentos estatutários. Embora sempre deva existir certa flexibilidade tática entre os documentos do partido e sua aplicação na realidade concreta (notem que falei de flexibilidade tática e não estratégica), essa flexibilidade nunca pode significar uma adaptação sem critérios às conjunturas momentâneas ou a anulação das decisões coletivas – sendo o congresso a expressão máxima da decisão coletiva do partido.

Além de expressar esse acordo coletivo sobre forma organizativa e programa, o partido revolucionário deve manter, no seu cotidiano, formas de funcionamento que permitam uma forte democracia interna e controle das bases sobre as direções dentro das previsões regimentais da lógica de funcionamento. Mas o que é democracia interna? Democracia interna é a construção democrática e participativa dos acordos coletivos e consensuais que constituem o partido e a aplicação desses acordos mediante regras (regras que devem ser democráticas) previsíveis e claras em sua forma de administração como meio de operacionalizar a política coletivamente escolhida em congresso.

Então o que é liberdade dentro da organização político-partidária? A liberdade é a relação dialética da individualidade com coletividade, onde, nos espaços decisórios do partido, a individualidade de cada militante se expressa sem constrangimentos ou assimetrias institucionais e contribui para assumir um posicionamento político que é maior que cada militante tomado isolamento, embora seja uma síntese expressiva das diversas individualidades. Se no partido determinados indivíduos de uma corrente teórica “x” tem mais espaço institucional para propagar suas ideias do que indivíduos da corrente teórica “y”, esse partido tem déficits de liberdade.

Quando, portanto, numa organização política é tolerada qualquer ação individual, não importando o quanto isso fira as decisões coletivas, temos uma ausência de democracia interna e um déficit grave de liberdade. Vamos a um exemplo. Imagine que um deputado de um partido tem muito prestígio na militância e entre vastos segmentos dos movimentos sociais. Esse deputado, sabendo do seu prestígio, desrespeita sistematicamente o estatuto e as resoluções congressuais do partido, mas nada acontece com ele, pois seu prestígio é tão grande e os mecanismos institucionais de democracia interna são tão débeis, que é muito fácil uma personalidade de renome se sobrepor ao coletivo. O deputado cospe em cima de toda construção coletiva ao ponto de o partido ter que posicionar-se publicamente contra a postura do deputado, afirmando que ela não representa o conjunto do partido, contudo, ao mesmo tempo, se nada acontece com o deputado, se o congresso e o estatuto são letra morta, qual é mesmo a posição do partido?

O mais curioso é que nesses casos a postura individualista e personalista é justificada como defesa da liberdade contra o autoritarismo. Só uma consciência completamente dominada pela ideologia burguesa do individualismo para considerar “liberdade” uma ação personalista que fere propositalmente uma construção coletiva consensual.

Ainda em nosso exemplo, usando um pouco mais de imaginação, esse deputado é membro de uma tendência que disputa o poder dentro do partido. Essa tendência usa o prestigio dos seus nomes famosos para manipular o regimento ao seu bel prazer e cria mecanismos institucionais que excluem os dissidentes ou minorias de aparecerem, por exemplo, no site, jornal, programa de TV etc. do partido. Esse partido mantém os déficits de liberdade em nome da liberdade: as tendências têm a “liberdade” de se organizar como quiserem, mas quem controla a máquina do partido cria uma arquitetura de funcionamento de maneira a reproduzir sempre o seu poder e a “liberdade” de organizar tendências tornar-se uma liberdade de ser a eterna minoria – pense, por exemplo, na história das tendências de esquerda do PT.

A disputa entre as tendências dentro do partido, além de ser a negação total da democracia interna e da liberdade partidária, expressa uma variante da competitividade burguesa. As tendências não colaboram entre si, não são expressões diversas de interesses particulares de um mesmo projeto universal, mas sim antagonistas numa concorrência pelo poder onde a destruição de uma significa a vitória da outra. Esse mecanismo de competitividade cria uma tendência curiosa: as tendências majoritárias manipulam a estrutura do partido no seu interesse e as tendências minoritárias defendem a aplicação das normas estatutárias e resoluções congressuais sistematicamente violadas, contudo, a majoritária não tem interesse nessa aplicação e a minoritária não tem poder para aplicar; o resultado é que o Congresso ao invés de expressar um consenso coletivo sobre o programa é uma concha de retalhos moldada através do poder diferencial de cada tendência e/ou personalidade e sua aplicação é sempre postergada ou parcialmente realizada.

Toda essa dinâmica expressa um brutal domínio do individualismo, personalismo e competitividade típicos da sociedade burguesa. Em grandes linhas essa é a dinâmica que rege a vida interna da organização que foi a maior força de esquerda por mais de duas décadas, o PT, e o seu principal candidato a sucessor, o PSOL. Contudo, diferentemente das críticas ao centralismo-democrático, esses problemas não ganham tanto destaque e raramente são considerados manifestações do autoritarismo. Por quê? Vamos arriscar uma tese.

A sociedade burguesa criou um conceito de liberdade ideológico que considera ausência de liberdade apenas as manifestações de opressão e controle do Estado sobre o indivíduo, e mesmo assim, não todas. O binômio “Estado-individuo” é o limite máximo da reflexão tradicional da ideologia burguesa sobre liberdade; portanto, qualquer condicionante estrutural que não for de ordem político-militar não é considerado atentado à liberdade. Um exemplo. Para um liberal o sujeito procura trabalho, assina um contrato e começa a ser explorado o faz por livre e espontânea vontade. O “pequeno fato” de que o trabalhador está destituído dos meios de produção e a dinâmica societária do capitalismo o obrigar a procurar um trabalho ou caso contrário ele morrerá de fome é um detalhe sem importância.

Logo, as pessoas influenciadas em níveis variadas por essa ideologia burguesa, têm uma dificuldade estrutural de compreender como autoritarismo o uso do prestígio pessoal para quebrar o acordo coletivo ou para manobrar o estatuto do partido, pois a ausência da figura do burocrata que dá ordens e mandar fazer (uma representação simbólica do Estado) dificulta a percepção do autoritarismo. O sujeito que “faz o que quer” pouco se importando para a construção coletiva é o reverso da moeda do que “manda de forma autoritária”: duas faces diferenciadas do mesmo problema.


Podemos concluir nosso texto afirmando que a frase fácil de ser ouvida nos meios de militância de que o partido de tendências mesmo com todos os problemas é “sempre melhor que o centralismo-democrático” porque garante “a liberdade de crítica e de iniciativa” esconde, na realidade, uma outra forma de autoritarismo e o cancelamento da democracia interna e da liberdade partidária; contudo esses problemas da organização “descentrada” ganham menos visibilidade política devido à ação da ideologia dominante. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O fetiche do novo e a ausência do básico: reflexões sobre a(s) prática(s) da esquerda atual

No senso comum o termo senso comum tem valor pejorativo. Refere-se a alguém que tem uma opinião simplista, irrefletida, pouco refinada. Nesse texto, porém, trabalhamos com uma noção diferente de senso comum. Compreendemos esse termo como um conjunto de ideias, valores, noções, teorias e conceitos com ampla difusão social e que acabam sendo tomados como verdades auto-evidentes, mas, na realidade, são apreciações que não conseguem superar o reino da aparência e chegar à compreensão da essência dos fenômenos.

Tornou-se um senso comum em vastos segmentos da esquerda brasileira a ideia de que precisamos criar novas práticas, táticas, identidades, símbolos, formas organizativas. O suposto velho não serve mais e praticamente todos os nossos problemas, em especial a pouca capilaridade de massas, devem-se a ausência de renovação. As experiências do Podemos e do Syriza, avaliadas com muito entusiasmo e pouca criticidade, reforçam esse senso comum.

O objetivo desse texto é reconhecer a parcial justeza desse raciocínio, mas, ao mesmo tempo, demonstrar sua falsidade parcial, apontando para um ponto pouco observado no seio das esquerdas e das pessoas que reproduzem o senso comum do novo: a quase completa debilidade da imensa maioria das organizações de esquerda brasileira no momento de realizar o básico da atividade política de acordo com a experiência que temos acumulado através de décadas de luta. Deixando mais simples. Aceito como correto a necessidade de certo nível de renovação na esquerda socialista/comunista, contudo, não debaterei nesse texto que renovação é essa, em que sentido e em quais aspectos; irei destacar como o senso comum da renovação impede a percepção de erros básicos e fundamentais, tornando-os naturalizados, e como eles prejudicam o crescimento quantitativo e qualitativo das organizações de esquerda revolucionária.

Um caso real de ilustração.

Um amigo meu participou por alguns meses de uma juventude partidária (não direi qual, afinal, o objetivo desse texto é reflexão e não polêmicas estéreis) e há mais ou menos quatro messes trocou de organização. Na sua organização antiga nunca tinha participado de um pedágio (prática de pedir dinheiro na rua para algum evento), brigada de jornais (a antiga organização dele não tem um jornal nacional), feito panfletagem sobre qualquer tema na rua, indo numa porta de fábrica ou empresa e as formações eram bastante raras. Nas reuniões da juventude, era comum algumas pessoas fumarem maconha enquanto outras estavam realmente preocupadas com a reunião.

Essa juventude, nos protestos que atuava, nunca levava panfletos, jornais ou procurava intervenções qualitativas no ato (como tentar combater direcionamentos errados). Nas reuniões pré-atos essa juventude mandava vários militantes com o objetivo de disputar os rumos do ato com base no maior número de falas possíveis, porém, raramente essa juventude se propunha a realizar um trabalho de massa pré-ato ou fazia-o de forma independente das outras organizações que estavam compondo o ato.

Notem o curioso: o sujeito do nosso exemplo passou meses numa organização que se pretende falar pela juventude, trabalhadores e oprimidos (negros, LGBT’s, mulheres, etc.) e nunca participou de uma ação de massa. As ações que participou foram os típicos atos ritualizados: manifestações despidas de um trabalho de base sério que são realizadas de forma ultra-reativa (o governo aumentou algo ou cortou algum direito).

O nosso exemplo real de uma organização serve para retratar a dinâmica de várias. Se você é militante há mais de um ano e nunca fez uma brigada de jornais ou uma panfletagem na porta de uma empresa ou fábrica (ou se essa atividade é extremamente rara), se sua militância se resume a disputar eleições de algum aparelho, fazer pequenas formações para recrutar alguém e ir para protestos ritualizados que não agregam massas (na eterna espera de “Junho de 2013, o RETORNO”), você não está fazendo o básico. Senão vejamos.

Na sociedade capitalista existem três formas básicas de conformação e reprodução da dominação. Através da ideologia dominante, da repressão e da dinâmica do cotidiano capitalista. A ideologia dominante materializada em seus aparelhos (família, escola, meios de comunicação, etc.) naturaliza as condições de existência atuais, as torna a-histórica, apresenta falsas soluções para os problemas diários, reforça o individualismo, etc.

Os aparelhos repressivos do Estado (Judiciário, policia, sistema penal, etc.) garantem a reprodução da ordem nos seus aspectos principais. Quaisquer questionamentos importantes as condições atuais, seja individual ou coletivo, serão neutralizados por esses aparelhos. Mas não é apenas repressão em negativo: o não deixar fazer. É repressão como o não deixar fazer e o induzir a fazer: regular os comportamentos e práticas sociais numa direção específica.

Já a própria dinâmica do cotidiano capitalista opera como um instrumento de reprodução da ordem. Jornadas de trabalho extenuantes, cansaço físico e mental, dupla ou tripla jornada (em especial no caso das mulheres), ilusões sobre ascensão social, direcionamento do “tempo livre” que resta para atividades de lazer etc. A dinâmica da sociedade capitalista cria uma situações onde militar politicamente exige um gigantesco esforço físico e mental e coloca em risco várias relações (como familiares) e, às vezes, até a própria vida do militante.

Além desses aspectos gerais da sociedade capitalista, no caso do Brasil, temos problemas há mais. Os anos de neoliberalismo e de adaptação à ordem da até então maior organização de esquerda do Brasil, o PT, criaram uma debilidade no tecido organizativo das classes trabalhadoras. Hoje é bem mais difícil conhecer trabalhadores militantes (na associação de moradores, sindicato etc.) em comparação com os anos 80 e 90.

A conclusão que podemos chegar, através dos aspectos gerais da sociedade capitalista e as particularidades da realidade brasileira, é que temos um longo trabalho de reconstrução da consciência e das práticas proletárias: reconstruir sindicatos, associação de moradores, movimento estudantil, tornar o marxismo a arma teórica de amplas massas, combater as ideologias de conciliação de classe, mostrar que a solução para os problemas diários não é individual e nem através da “ascensão social”. Esse longo trabalho exige um contato diário e continuo com os trabalhadores em seus diversos locais de sociabilidade. Na empresa, no terminal de ônibus, na sua moradia. Em todos esses lugares a esquerda tem que se fazer presente. Criar uma relação de confiança, de reconhecimento mútuo.

Para trazer esses trabalhadores para a política (em especial os que nasceram nos anos 90 e foram criados durante o refluxo da esquerda brasileira e muito provavelmente não tem experiência de militância) é necessário esse longo trabalho. Todas as vezes que vou às ruas participar de uma panfletagem ou brigada de jornais, sou muito bem recebido, quando falo dos problemas do povo trabalhador todos interagem bem; muitos perguntam quando estaremos na rua de novo, mas, curiosamente, no geral, esse mesmo trabalhador(a) que me recebe bem na brigada de jornais não chegam no protesto contra o aumento das passagens. Por quê?

Eu aposto que a falta de um trabalho sério e sistemático no dia-a-dia do povo trabalhador faz com que ele não se reconheça na maioria das organizações de esquerda. A realização de atos ritualizados (como os contra o aumento das passagens) e operados com máquinas burocráticas de sindicatos (que tem muito dinheiro, mas pouca base) cria uma falsa ilusão na esquerda de que o “povo está nas ruas”, porém, o “povo” mesmo não é atingindo por agitação e propaganda de esquerda no cotidiano, não vê as organizações de esquerda lutando junto dele por seus problemas mais elementares, não reconhece o rosto dos militantes que estão na rua supostamente agindo por ele – e o certo deveria ser com eles!

Quando alguma organização percebe isso e realiza o básico em sua militância política (trabalho cotidiano de agitação e propaganda, ações de rua de forma sistemática, trabalho em comunidades respeitando a autonomia e o tecido organizativo do local, etc.) o resultado é crescimento quantitativo e qualitativo.

Muitos militantes percebem a distância entre o seu discurso e a prática de sua militância e isso gera uma angustia. Para explicar essa angustia ou conseguir conviver com ela é que surgem mitos do senso comum como a necessidade de renovar as práticas da esquerda como solução para a maioria dos nossos problemas. O curioso é: a imensa maioria das pessoas não sabem o que é esse “novo”, sabem apenas que ele tem que surgir, assim, cria-se uma explicação imobilista do imobilismo: se ninguém sabe ao certo o que é esse novo, fica difícil criá-lo. Termina acontecendo algo muito comum nos dias atuais: o militante acha que toda a esquerda ou sua organização nunca serão de massas porque estão fazendo tudo errado, de forma velha, aí sai da militância para sempre ou fica militando individualmente e numa posição de superioridade criticando toda a esquerda que não consegue criar o “novo”.


Se esse texto serviu para algo, clamo aos militantes que aderiram ao discurso da necessidade imperiosa do “novo”, que reflitam se na sua militância cotidiana sua organização realiza o básico: o trabalho de massa no cotidiano dos trabalhadores através da agitação e propaganda e na luta por suas pautas particulares (isto é, panfletagens, brigadas de jornais, greves e piquetes, formações que realmente atraiam os trabalhadores, projetos comunitários que criem uma relação de confiança com os trabalhadores de determinada comunidade, etc.). Se a resposta for “não”, o seu problema não é a ausência do “novo”, mas sim do BÁSICO e TRADICIONAL da esquerda brasileira – em especial o que faziam os comunistas antes da ditadura empresarial-militar - e que hoje estamos perdendo. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Acabaram os "autos de resistência" no Brasil?



A resposta é NÃO. A resolução conjunta do Conselho Superior de Polícia, órgão da Polícia Federal, e do Conselho Nacional dos Chefes da Polícia Civil publicada no Diário Oficial da União muda a nomenclatura do dispositivo jurídico, mas não determina o seu fim. Explicando. 

O "auto de resistência" é um dispositivo jurídico que permite que agentes do Estado possam matar pessoas e essas mortes não sejam consideradas como homicídios, mas um procedimento de autodefesa ou uso proporcional da força em momentos de resistência ou confronto. A imensa maioria dos países capitalistas do mundo tem dispositivos jurídicos semelhantes. Qual é o grande problema no Brasil?

O "auto de resistência" é usado como um mecanismo jurídico que legaliza uma política de extermínio sistêmico praticando por agentes do Estado [burguês] contra segmentos da classe trabalhadora (em especial jovens e negros). Ou seja, os aparelhos repressivos do Estado (polícia civil, militar e científica, ministério público, corregedorias da polícia militar, secretarias de segurança, etc.) agem de uma forma a ENCAIXAR os assassinatos no dispositivo jurídico do "auto de resistência" e assim legalizar o homicídio que deixa - do ponto de vista legal - de ser homicídio (forja de confrontos, falsos laudos periciais, ministério público conservador que acredita mais na versão dos policiais que nos familiares da vítima, etc.).  

Dando um exemplo concreto. Orlando Zaccone no seu livro "Indignos de Vida" (uma obra excelente, diga-se de passagem) demonstra como, no Judiciário, no processo de "apuração" dos "autos de resistência" a "história de vida" da vítima é pesquisada como forma de encontrar um passado criminal, associação com o tráfico de drogas ou até mesmo companhia com "más amizades". O Judiciário usa, inclusive, depoimento dos familiares da vítima para criar esse "passado maldito" e se é "descoberta" qualquer possibilidade de relação com "o crime" a versão policial é dada como verdadeira. Ou seja, o Judiciário não investiga as circunstâncias do assassinato cometido pelo agente do Estado, mas o passado da vítima ou a dinâmica da localidade (a favela é vista como uma área perigosa e os "autos de resistência" cometidos nela são quase que justificados antes de qualquer investigação). Uma série de fatores explica essa postura do Judiciário e como se deve perceber é idealismo achar que isso será transformado sem uma profunda reforma nesse aparato do Estado [burguês]. 

Então o que mudou? A partir de agora a morte de pessoas por agentes do Estado será classificada como ""homicídio decorrente de oposição à ação policial"" e um inquérito policial deve ser aberto com tramitação prioritária. Ou seja, mudou o nome do dispositivo jurídico, mas não sua essência e nem o funcionamento concreto - para além do que diz apenas a legislação - dos aparelhos do Estado que produzem o extermínio sistêmico da classe trabalhadora (lembrando que os aparelhos repressivos do Estado funcionam em relação orgânica com aparelhos privados, como os monopólios de mídia, indispensáveis para legitimar a violência). 

Enfim, a luta contra o extermínio da classe trabalhadora brasileira continua e não tivemos nenhuma grande vitória com essa nova resolução.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Jean Wyllys, Israel e antissemitismo.

Texto escrito por Carlos Henrique Siqueira e publicado na página do Deputado Wyllys no Facebook. 

Crianças palestinas assassinadas pelo Estado de Israel
Prezado Jean, me desculpe, mas você está no Estado mais militarizado do mundo, com uma das sociedades mais abertamente racistas do mundo, que vive numa situação de Apartheird com a completa segregação dos cidadãos israelenses de origem árabe. É o Estado com maior número de condenações por crimes contra os direitos humanos pela ONU, é promotor de um genocidio em andamento. Gaza é um grande campo de concentração. Israel é basicamente a África do Sul da nossa geração. E você me falar de usar a Palestina como argumento para não discutir o antisemitismo?

Toda a literatura crítica de Israel, de Noam Chomsky a Judith Butler, passando por Dr Norman Finkelstein, Allen Papa, Shlomo Sand, Gideon Levy, Uri Avnery, Edward Said e outros todos dizem justamente o oposto. Israel usa sua força política, e seus recursos financeiros para fazer com que a agenda do antisemitismo e o próprio Holocausto sufoque o debate sobre os crimes contra a humanidade, a política de Apartheid, e o genocídio contra os palestinos.

Há décadas existem fundações judaicas, devidamente financiadas por recursos privados e públicos, por toda a Europa e EUA com a exclusiva missão de promover a agenda do debate sobre anti-semitismo, não sobre a Palestina. O departamento de comunicação de israel, com bilhões de dólares de orçamento promove a mesma a agenda, paga agencias e empresas de comunicação para promover visões positivas sobre Israel, e intervir nos debates com viés negativo. Portanto, acho que a discussão sobre o antisemitismo nunca foi e nunca será ameadaça pela questão palestina.

Por favor, ninguém conhece tudo, ninguém está a par de todas as discussões o tempo todo. Evidentemente você não está a par do debate sobre a política de auto-representação promovida por Israel. Mas não custa escutar e aprender.

Ir a Israel para falar sobre antisemitismo enquando eles mantém um campo de concentração ao lado, e sem tocar na questão palestina, sem ter a coragem de falar a verdade ao poder, é um ato de covardia. Se você está indo a Israel para discutir exclusivamente antisemitismo, você está sendo incorporado a máquina de relações públicas de Israel.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Como mentir com estatísticas em quatro exemplos



A) Falsear o critério estatístico - Uma das formas mais comuns de mentir com estatísticas é criar um critério estatístico errado na hora de analisar um fenômeno. Vamos pegar, por exemplo, as estatísticas que medem a miséria e a pobreza. Pega-se um determinado nível de renda (100 dólares é o mais comum) e se estabelece como critério que abaixo desse nível de renda “x” a pessoa é miserável e acima (pode ser acima em apenas 0,1%) não é mais miserável, mas “apenas” pobre – e acima de 200 dólares per capto (isto é, por pessoa) não é mais pobre e assim sucessivamente. A falsidade é que esse critério estatístico considera que a partir de um nível renda "x" a pessoa não é mais miserável ou pobre porque o mercado é capaz de suprir todas as suas necessidades fundamentais. Ou seja, esse critério usa um axioma “mercado + renda adequada = necessidades básicas satisfeitas” – acho que não preciso dizer o quanto isso é falso. 

B) Criar uma falsa relação de causalidade - É comum liberais apresentarem índices de liberdade econômica e depois afirmar: os países mais livres são os mais desenvolvidos, logo, desregular a economia em benefício da liberdade de ação do capital é o caminho para o desenvolvimento. Sem entrar no mérito de o quanto é problemática essa estatística, chama atenção como a relação de causalidade entre “liberdade econômica” e “desenvolvimento” é totalmente falsa. Apenas um exemplo serve para ilustrar isso. A economia de um país não é algo que pode ser analisado em si mesmo. Existe um sistema capitalista mundial organizado de forma hierarquia onde cada país está inserido de uma forma diferenciada e a economia nacional só é passível de um entendimento racional compreendendo sua dinâmica no mercado mundial. Excluir a existência do mercado mundial e como ele é constitutivo de todas as economias nacionais e considerar que países em posições bem diferentes na divisão internacional do trabalho podem ter o mesmo “desenvolvimento” tendo o mesmo “índice de liberdade econômica” é falsear a relação de causalidade através de estatísticas. 

C) Esconder todos os fatores de um problema - É comum mentir como estatísticas apresentando um ou mais dados para comprovar uma tese e omitir os outros dados que compõe o problema. Por exemplo, um governista diz que a educação pública se fortaleceu nos governos do PT. Cita o número de universidades construídas e campos ampliados, o aumento das verbas, o maior número de alunos na graduação e pós-graduação etc. e acha que isso prova sua tese. O que ele omite é que o fortalecimento da educação pública em um determinado período histórico deve levar em conta não só os dados de crescimento do setor público, mas também do setor privado e analisar a penetração do setor privado no público (algo histórico no Brasil). Levando em conta esses dados vemos que a educação privada teve o maior fortalecimento de sua história nos governos do PT, que o número de alunos (graduação e pós) em instituições privadas aumentou mais rápido que em instituições públicas, que a construção de unidade privadas cresceu mais que as públicas, etc. Em resumo: constataríamos que a educação pública teve uma expansão nos últimos anos, mas essa expansão deu-se num quadro de enfraquecimento geral da educação pública.

D) Falsear a temporalidade - Outra forma comum de mentir com estatísticas é ignorar que os fenômenos sociais apresentam temporalidades diferenciadas na expressão de mudanças quantitativas e qualitativas. Isto é, algumas mudanças são perceptíveis no curto prazo, outras no médio e no longo e algumas só no longo prazo. Ignorar a temporalidade própria do fenômeno e apresentar estatísticas de um arco temporal qualquer é uma ótima forma de mentir com estatísticas. Criminólogos conservadores na Espanha tentaram provar que a criminalidade não tem qualquer relação com as formas de desigualdade socioeconômica e apresentam as estatísticas do crime na Espanha entre 2000 e 2005 e entre 2008 e 2012 (auge da crise capitalista e do aumento da miséria, pobreza, desigualdade social, desemprego, etc.). A variação estatística era quase nula. Conclusão dos conservadores: o aumento da miséria e da pobreza não apresentou qualquer variação nas taxas de criminalidade. O problema é que a criminologia crítica compreender que as diferentes formas de desigualdades sociais e simbólicas condicionam conflitividades sociais explosivas que se expressam [também] em índices de criminalidade, mas a temporalidade na relação entre aumento das desigualdades e maior criminalidade é sempre de média e longa duração (e nunca mecânicas) e não é uma relação que pode ser medida no arco temporal de um, dois ou três anos de variação. 

Conclusão: cuidado com estatísticas e nunca as tome como um argumento irrefutável.