terça-feira, 26 de abril de 2016

A “crise da esquerda” e a ilusão do “novo”

Plenária de luta por moradia da Unidade Classista.
Venho defendendo há certo tempo – em palestras, formações, publicações no blog etc. – que a noção de que a esquerda “precisa criar o novo” e que o apego as “velhas práticas” é o que explica nossa baixa capilaridade, é uma ideia totalmente falsa, uma pseudo-crítica paralisante. Falsa porque, dentre outras coisas, várias organizações da esquerda socialista não realizam o básico da luta de massa, reproduzem diversos vícios da esquerda governista (como a centralidade nas disputas de aparelhos sem base, mas com capacidade de gerar muito dinheiro – exemplo: UNE) e na maioria das vezes, os que falam desse “novo” desconhecido acabam defendendo a velha mas não boa socialdemocracia – vide a experiência do Syriza na Grécia e seus apoiadores no Brasil [1].

Nessa linha do “novo” desconhecido, Alvaro Bianchi, professor universitário e ex-militante do PSTU, publicou um texto no Blog Junho chamado “precisamos conversar sobre a crise da esquerda” [2]. Antes de entrar propriamente no conteúdo do texto, achamos ser interessante emitir algumas palavras sobre o autor do texto.

Marxista e professor, Bianchi procura ser um intelectual de intervenções públicas na conjuntura política e nas formulações práticas e teóricas da esquerda brasileira. Ex-militante do PSTU e figura presente em vários blog’s da internet – como o Convergência e Junho -, Bianchi aparentemente está longe de ser o marxista de cátedra que fica encastelado dentro da universidade; contudo, chama atenção nos seus textos de reflexão sobre os rumos da esquerda uma ausência de autoreflexão e autocrítica! Isso em dois sentidos.

Primeiramente, como filiado a uma tradição dentro do movimento comunista, o trotskismo, é necessário explicar porque em mais de 80 anos de existência, como raras exceções, como a Bolívia e a Argentina, essa corrente sempre foi e continua sendo irrelevante na maioria dos países do mundo e nunca liderou um processo revolucionário socialista ou de libertação nacional – e os lugares comuns da “repressão stalinista” só agradam aos já convertidos [3]; em segundo lugar, e talvez o mais importante em nosso atual cenário histórico, é imprescindível tratar dos rumos do PSTU, partido do qual o Bianchi fez parte e rompeu, mas nunca realizou uma autocrítica de sua própria militância ou um debate profundo sobre a estratégia dos morenistas – o mais próximo disso são os comentários irônicos e muitas vezes infantis do professor nas redes sociais: tiradas que atingem seu ex-partido, mas também com frequência o PCB e PSOL.

O objetivo do Prof. Bianchi no texto é afirmar que a esquerda passa por uma crise, que precisa se reinventar e criar novas formas de fazer política (ainda que de forma vaga, Bianchi ao menos dá indicações do que seria esse “novo”) e para fundamentar sua visão, expõe uma série de críticas às posturas da esquerda socialista lembrando alguns episódios da história recente. Vejamos a questão mais de perto.

Bianchi tem um estranho jeito de escrever. Não cita em qualquer lugar do texto de quais organizações está tratando e fala da esquerda socialista como um todo homogêneo em seus erros. Diz que a esquerda socialista está “paralisada” e que “assistiu quase sem reação às manifestações dos golpistas” e que “não consegue entender os atos governistas, assumindo assim “o papel de oposição verbal”.

Aqui já temos um problema sério. A esquerda socialista não está paralisada. O PSOL e o PCR aderiram à Frente Povo Sem Medo, o PSTU procura sozinho criar um Terceiro Campo centrado na palavra de ordem “Fora Todos” e na tática das “eleições gerais”, o PCB também toma como prioridade a criação de um terceiro campo e ao mesmo tempo vem apostando na composição unitária de ações com a Frente Povo Sem Medo e o MTST. Afirmar que esses quatro partidos citados – para ficar apenas nesses exemplos – assistiram quase sem reação as manifestações golpistas é uma falsidade absoluta – o questionamento sério a ser feito é se as táticas de enfrentamento estão corretas.

“Entender” é uma palavra que remete ao plano da análise teórica. Quando Bianchi diz que toda oposição de esquerda não entendeu os atos governistas, por honestidade intelectual, é no mínimo necessário citar provas – expressas em notas políticas das direções dos partidos e movimentos sociais da esquerda socialista – desse não entendimento, e a “oposição verbal” é uma conclusão de quem não demonstra o percurso que o levou a isso.

Depois Bianchi fala de junho de 2013 como o aviso “aquela forma de imaginação política chegou ao seu limite e passou a se decompor” (a forma criada com a esquerda petista) e passa a divagar como a esquerda socialista foi rechaçada nas manifestações de rua. Isso é uma meia verdade. A esquerda socialista, assim como a governista, foi realmente hostilizada nas ruas pela classe trabalhadora embebida no senso comum, contudo, junho de 2013 também foi a primeira experiência política de milhares de jovens que hoje se organizam em coletivos, movimentos sociais e partidos políticos. É difícil dizer o quanto esses jovens que eram antipartido e estão hoje organizados representam do total de junho de 2013, provavelmente não são maioria, mas duvido que sejam um número inexpressivo.

Ficando apenas no exemplo de Pernambuco e da organização do qual eu milito (UJC), o crescimento da organização (duplicou de tamanho em termos de número de militantes e tem um arco de influência político-ideológico que se pudesse ser quantificado, diria que quadruplicou) é produto do influxo de militantes “filhos” do Junho de 2013.

Depois Bianchi diz que os ventos de Junho de 2013 não terminaram e estabelece uma linha de continuidade entre as “explosões de fúria nos canteiros de obra; nas manifestações dos sem-teto; nas mobilizações contra os gastos com a Copa do Mundo; na revolta em escolas de Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro; na primavera feminista; nas greves de professores”.

Oras, os sem-testos, organizados no MTST, fazem parte da esquerda socialista e em muitos estados estreitam suas relações com partidos como PCB e PSOL; as manifestações contra a Copa tiveram participação ativa da esquerda socialista (eu como militante a UJC participei de várias em Pernambuco), a revolta dos estudantes em Goiás, São Paulo e Rio têm participação destacada da esquerda socialista e o clima anti-organizações que existia em Junho de 2013 não tem a mesma intensidade nessas ocupações e a greve dos professores, em vários estados, têm a CSP-Conlutas como impulsionador importante, central sindical dirigida pelo PSTU, ex-partido do Bianchi.

Citar esses acontecimentos como prova da inexpressividade da esquerda socialista só pode ser ignorância ou uma apreciação superficial de gabinete – de quem não foi em nenhuma ocupação ou protesto contra a Copa.  Para nosso autor, a esquerda atual também sofre de “antiintelectualismo predominante impede pensar o futuro e afirmar uma imaginação estratégica”; o antiintelectualismo é uma verdade em segmentos pós-modernos da esquerda, especialmente os organizados na forma-coletivo e que defendem noções que apontam a “vivência” como fonte inabalável da verdade teórica. Mas, de novo, apontar isso como traço geral da esquerda socialista é um falseamento da realidade. Essa crítica pode servir especialmente ao PCR e talvez ao PSTU, mas dificilmente ao PCB, Polo Comunista Luiz Carlos Prestes, Insurgência e movimentos sociais como MST, MTST e as diversidades entidades do movimento indígena.

Antes de terminarmos o texto, precisamos deixar algo claro para evitar um mal entendido. Não estamos afirmando de maneira alguma que a esquerda socialista brasileira está à altura de tarefa política de superação revolucionária do capitalismo nesse momento histórico. Estamos, infelizmente, muito longe disso e é necessário explicar o motivo de na crise terminal do programa democrático-popular e do PT, a esquerda socialista não aparecer como a alternativa imediata para o conjunto da classe trabalhadora e os movimentos sociais.

Contudo, não andaremos nenhum passo nessa reflexão necessária se igualarmos o que é desigual e desconsiderarmos um fenômeno muito importante: diversas organizações da esquerda socialista crescem em ritmo constante – ainda que lento se considerar as necessidades conjunturais e históricas e o ritmo de decomposição do petismo.

O MTST amplia suas bases, ganhe novos militantes e capacidade de ação política em ritmo crescente, o PSOL cresce bastante na juventude, movimentos de “minorias” e tem-se apresentado como alternativa institucional em vários estados, o PCB e seus coletivos partidários, como a UJC, também crescem em bom ritmo há no mínimo quatro anos e o partidão volta a ter papel importante de luta em categorias profissionais de diversos estados (como construção civil, professores, funcionários públicos etc.), a CSP-Conluta, pelo menos até 2014, também crescia em ritmo interessante passando a dirigir vários sindicatos e construindo várias oposições sindicais – o mesmo com a Intersindical Vermelha etc.

A constatação de que a esquerda socialista ainda não tem o nível de capilaridade política necessária não nos deve fazer pensar que está tudo errado, que precisamos do obscuro e mítico “novo”. Precisamos na verdade, como já afirmei em outro texto [4], é realizar o básico da luta de massa de acordo com os melhores exemplos de nossa experiência histórica acumulada e não criar moinhos de vento, afinal, política não é literatura, e Bianchi não é Cervantes.

[1] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/07/o-psol-velha-esquerda-e-o-syriza.html
[2] – http://blogjunho.com.br/precisamos-conversar-sobre-a-crise-da-esquerda/
[3] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/01/otrotskismo-e-o-movimento-comunista-no.html

[4] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2016/01/o-fetiche-do-novo-e-ausencia-do-basico.html

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Alternativa? Cadê a alternativa?


Foto "clássica" da greve dos Garis no Rio.
Nosso texto começa com uma história bem conhecida. Em 1914 começa o maior conflito bélico da história da humanidade (até aquele momento). A primeira guerra mundial foi um conflito interimperialista do capitalismo na era dos monopólios pela disputa de territórios e áreas de influência para exportação de capitais e domínio geopolítico. A primeira grande guerra não marca apenas uma gigantesca tragédia humana e civilizatória, é o marco também da maior derrota do proletariado mundial no nascente século XX.

Na passagem do século XIX para o XX, o proletariado obtinha saltos organizativos impressionantes na Europa Ocidental. Os partidos políticos de massa eram uma realidade em praticamente todos os países capitalistas, as leis antissocialistas eram derrubadas, o sufrágio ampliado, os sindicatos cada vez mais organizados e fortes, a força parlamentar crescente etc. O socialismo parecia estar na ordem do dia quando, mesmo não tão de repente assim, o Partido Socialdemocrata Alemão, o maior da II Internacional, vota a favor dos créditos da guerra, apoiando “sua burguesia” no conflito interimperialista e é posteriormente seguido por outros partidos socialistas. Era o fim melancólico da II Internacional. A palavra de ordem “proletários do mundo, uni-vos” parecia uma grande piada de péssimo gosto.

Porém, em meio à tragédia, um pequeno mas corajoso grupo de revolucionários, cujo os principais nomes eram Rosa Luxemburgo e Lênin, disseram não ao “socialchauvinismo” (como ficou conhecida a posição dos partidos socialdemocratas de adesão à guerra). Lênin e Rosa recusaram-se com toda força e convicção revolucionária que tinham a trair o socialismo. Estavam isolados. Não tinham metade da base da socialdemocracia alemã, se propuseram, cada um em seu país, a criar uma nova alternativa revolucionária.

A continuação da história já sabemos. Rosa é fundadora do Partido Comunista alemão e uma das grandes lideranças da Revolução Alemã, a revolução é derrotada e a grande Águia da revolução, como Lênin a chamava, é assassinada pela socialdemocracia; Lênin tornasse o líder da primeira revolução proletária do mundo, o maior líder revolucionário da história e a principal figura na fundação e primeiros anos da III Internacional! Mas não se enganem! Esse texto é sobre a conjuntura brasileira, porém por que começar contando sumariamente essa historia?

Quando Lênin e Rosa Luxemburgo negaram o socialchauvinismo da II Internacional eles não tinham alternativa naquele momento. A “negatividade” de sua escolha política [acertada] só expressaria uma “positividade”, isto é, a construção de algo novo, a médio e longo prazo. Se Rosa e Lênin constatassem que não havia no imediato, no agora, uma alternativa organizativa maior e mais forte que a II Internacional, e por isso capitulassem ao socialchauvinismo, teríamos uma história bem diferente do que temos hoje – provavelmente com um mundo bem pior.

O momento político atual expressa o total esgotamento do programa democrático-popular (PDP) e do seu principal operador político, o PT, porém, isso não significa que o PT e seus satélites – como PCdoB e Consulta Popular – vão deixar de ter peso social e político. O significado é mais profundo: como estratégia de superação da ordem burguesa, o programa democrático-popular faliu teórica e praticamente e seus principais aparelhos, como CUT e o próprio PT, transformaram-se em maior ou menor medida em instrumentos de conservação da ordem burguesa – ainda que tentem “humanizar” o capitalismo.

A necessidade histórica de superar a estratégia democrático-popular e seus operadores políticos na teoria e na prática tornou-se mais que evidente depois da derrotada vergonhosa do PT com a aprovação do processo de impedimento na Câmara. Mas quando falamos da necessidade de forjar o novo, construir uma nova estratégia revolucionária e socialista, muitos governistas apontam a ausência dessa alternativa agora, no imediato, e disso deduzem que temos que ficar a reboque do governismo porque ainda não temos essa alternativa pronta.

A primeira coisa a ser dita sobre essa postura política é entrar no seu significado teórico. Rosa Luxemburgo afirmou que um dos principais traços do oportunismo é criar uma ruptura entre estratégia e tática, entre o objetivo final e a ação prática. O oportunismo separa o imediato do futuro, reafirma formalmente o objetivo final – a construção do socialismo -, mas na prática cotidiana realiza uma política que o afasta do socialismo como o diabo da cruz.

Ao pregar que o correto seria estar a reboque de um projeto político - o governismo - que significa rebaixamento teórico, político e organizativo da classe trabalhadora e um direcionamento estratégico de conciliação de classe (direcionamento que se mantém mesmo com o PT estando nas cordas, à beira do nocaute) porque não “temos alternativas revolucionárias agora”, o governismo expressa através do seu oportunismo uma incongruência insuperável: como construir uma alternativa revolucionária apoiando um projeto burguês, conciliador e pró-capital?

Para os governistas deveríamos agir no cotidiano a reboque do governismo mas em palavras, e só em palavras, propormo-nos a superar suas contradições – de resto, essa é a postura da Consulta Popular. É “natural” essa postura dos governistas. Na sua prática política o oportunismo – essa ruptura entre tática e estratégia e a justificativa de todas as medidas de conciliação com o capital – é onipresente. O PT se afirma defensor do socialismo, mas no Governo manteve o modelo neoliberal em seus fundamentos; o PCdoB se afirma marxista-leninista, mas é o partido do código florestal dos latifundiários e que votou a favor do ajuste fiscal antipopular – para ficar apenas em alguns exemplos.

Mas os governistas estão certos em uma coisa: não temos ainda uma alternativa ao PT e ao PDP. Temos a falência de uma estratégia política da classe trabalhadora, contudo essa falência, pela primeira vez em nossa história, não é acompanhada de uma grande ascensão de massas que crie as condições subjetivas e políticas de uma formação mais ou menos rápida dos nortes centrais de uma nova estratégia. O primeiro grande ciclo do movimento operário brasileiro foi anarquista e anarcossindicalista e foi superado pela propagação do marxismo, o impacto da Revolução Russa e a criação do PCB; com a hegemonia do PCB temos a estratégia democrático-nacional que não faliu, porém foi derrotada em 1964 e o PCB foi esmagado pela repressão da ditadura empresarial-militar; com a abertura dos anos 80 e a desarticulação do PCB, a estratégia democrático-popular e o PT puderam surgir como os grandes instrumentos da luta socialista.

Bem entendido, não estamos afirmando que existe uma ausência de formulações críticas ao PDP e sua trajetória e propostas de estratégias alternativas. Essas críticas existem – e o melhor dos críticos é Mauro Iasi – e as formulações estratégias revolucionárias – como as do PCB, Insurgência, PCLCP etc – também. Mas essas críticas e formulações estratégicas carecem de uma maior penetração nas massas trabalhadoras.

Embora exista um evidente, ainda que lento, crescimento do peso político das organizações da esquerda socialista, ainda não estamos no patamar adequado para a luta revolucionária, mas a chegada nesse patamar é um processo construído já agora, comportando tarefas de curto, médio e longo prazo, e não pode ser uma tarefa para um futuro distante a ser realizada num tempo indeterminado.

A conclusão que podemos chegar é que o momento histórico apresenta a falência do PDP não acompanhado da ascensão do movimento de massas e das condições objetivas e subjetivas para a criação de uma nova estratégia revolucionária de peso nacional nas massas trabalhadoras, contudo, isso não deve-nos fazer capitular frente ao governismo, ficar ao seu reboque e suspender as críticas teóricas e práticas ao limites e consequências do PDT. Se somos coerentes na relação orgânica entre estratégia e tática, e se o objetivo estratégico é a construção do socialismo, devemos desde já lutar incansavelmente – com fundamentação na teoria revolucionária marxista – por sua realização, construindo cotidianamente seus pressupostos – ou, como diria a grande Rosa Luxemburgo:

Vocês veem que um certo número de nossos camaradas não se colocam no campo do objetivo final de nosso movimento. E é por isso que é necessário dizê-lo claramente e sem equívoco. É hoje necessário mais que nunca. Os golpes da reação caem sobre nós duros como granizo. Nós devemosa responder ao último discurso do imperador. Nós devemos declarar, de uma maneira clara e franca, como o velho Catão: “ Eu penso que é preciso destruir este Estado.” A conquista do poder político permanece nosso objetivo final e o objetivo final permanece a alma de nossa luta. A classe operária não deve se colocar sob o ponto de vista decadente do filósofo: "O objetivo final não é nada, o movimento é tudo.” Não, ao contrário, o movimento enquanto tal, sem relação com o objetivo final, não é nada, o objetivo final é que é tudo! [1]  




Sobre a tortura, direita e esquerda.




Em 1946 o Departamento de Defesa dos EUA funda a “Escola das Américas”. O objetivo da instituição era realizar treinamento militar e doutrinação ideológica nas forças armadas da América do Sul com vistas a garantir em todo continente um aparato militar reacionário, anti-esquerda e avesso a qualquer processo de emancipação nacional. Em 1961, sobre o impacto da Revolução Cubana, a “Escola das Américas” se torna especialista em "formação de contrainsurgência anticomunista"; isso significava, dentre outras coisas, cursos de TORTURA. A “Escola das Américas” formou toda uma geração de militares pela América do Sul na “arte” da tortura e preparou-os ideologicamente para não mostrar dúvidas no “combate ao comunismo” praticando todos os tipos de horrores imagináveis: tortura de mulheres grávidas e crianças, estupros coletivos, mutilação de órgãos (especialmente genital) como técnica de “arrancar confissões” etc. – muitos deles tiveram professores nazistas recrutados pela CIA ao final da Segunda Guerra Mundial.


Todas as ditaduras militares na América do Sul aplicaram a tortura em massa como forma de terror político contra as esquerdas e os movimentos sociais (especialmente contra os comunistas). Os comunistas não só foram às maiores vítimas da tortura como os que mais lutaram contra essa barbárie elevada à política de Estado. Enquanto isso, em Cuba, quando a ditadura de Fulgêncio batista foi derrubada pela Revolução, foram descobertos vários centros de tortura. A Revolução cubana não só devolveu os corpos às famílias das vítimas e puniu os torturadores em julgamentos públicos, justos e com o devido processo legal, como criou uma política de banição total da tortura no sistema carcerário e na polícia. Mas não foi só isso: Cuba serviu como uma base mundial de denúncia das torturas realizadas pelas ditaduras militares na América do Sul e em África.



O pensamento liberal e reacionário adora apontar a esquerda como antidemocrática e totalitária, mas, na realidade, quando Bolsonaro elogia um notório torturador como Brilhante Ustra ele não está mais que seguindo a tradição histórica da direita continental; e quando a esquerda repudia esse tipo de postura política, ela também não faz mais que seguir seu histórico de combate a esse brutal crime contra a humanidade! De resto, a tentativa da direita de igualar os “justiçamentos” das guerrilhas urbanas e rurais que lutavam contra a ditadura com a tortura do Estado não passa de uma tentativa desesperada e falsa de tentar igualar o inigualável: a esquerda armada nunca cometeu estupros, matou mulheres grávidas, torturou crianças ou idosos, usou a “cadeira do dragão” ou coisas do tipo. Os “justiçamentos” não passavam da eliminação de agentes da tortura capturados em combate – algo extremamente raro – na luta inglória de jovens corajosos contra o maior e mais poderoso Estado militarizado da América do Sul!