domingo, 1 de julho de 2018

O cinismo com sotaque gringo

Ciro e Mangabeira Unger

Um dos principais motivos da apatia e indiferença de setores da classe trabalhadora brasileira com a política, os partidos, sindicatos e movimentos sociais é a percepção de que "todos são iguais". Essa percepção, embora seja costurada diariamente pelos monopólios de mídia, contém uma boa dose de realidade. Na prática, desde a segunda metade dos anos de 1990, os setores hegemônicos no campo da esquerda - PT, PCdoB e associados - são cada vez mais parecidos com os partidos e políticos da ordem: não são iguais, porém são o mesmo, diria um grande pensador.


Esse tipo de unidade programática do sistema petucano hoje em crise não sobrevive sem o cinismo eleitoral. Curiosamente, em tempos de eleição, ideias são abandonadas, programas revistos, críticas esquecidas, compromissos quebrados. Inimigos mortais se tornam casais apaixonados de um tipo que daria inveja ao mítico par Tristão e Isolda. As "reviravoltas" eleitorais, o bom e velho cinismo, já são dominantes na cena política brasileira.


Roberto Mangabeira Unger, um dos principais coordenadores de campanha de Ciro Gomes, em entrevista ao Estadão, prova que o cinismo eleitoral não conhece limites. Segundo o filosofo com sotaque gringo, o Brasil tem três grandes força sociais, chamados de "emergentes": uma pequena burguesia empreendedora mestiça e morena que luta para abrir e manter pequenos negócios, uma massa de trabalhadores ainda pobres, mas que mantém dois ou três empregos e a multidão que é maioria pobre que já tem os olhos vidrados na vanguarda dos emergentes. Depois dessa sociologia de mesa de bar (o que diabos seria uma pequena burguesia empreendedora mestiça e morena???), Unger afirma que o DEM (Democratas) é um dos partidos que representa esses "emergentes".


Para o pensador semi-brasileiro, o DEM é um partido de "empreendedores regionais. Têm raízes nessa estrutura produtiva descentralizada do País" e está à esquerda do PSDB; o PSDB, por sua vez, seria "comprometido com o receituário tradicional do chamado Consenso de Washington. Com uma política social meramente compensatória e um colonialismo mental e cosmopolita", mas o DEM não: esse é um partido genuinamente nacional. Por isso, veja só, a aliança com o DEM não seria um oportunismo eleitoral de Ciro Gomes, mas uma compreensão ampla do Brasil e a expressão da necessidade de incorporar "empreendedores graúdos, pequenos e médios" ao projeto de desenvolvimento nacional.


Unger não é um ignorante da história brasileira. É possível discordar de toda obra dele, mas não considerá-lo alguém com pouco conhecimento da história nacional. A linguagem do sujeito sobre a caracterização de classe e das forças sociais atuantes do Brasil é propositalmente nebulosa, confusa, para justificar o injustificável. Não é possível levar a sério uma classificação como essa "pequena burguesia empreendedora mestiça e morena" (e os motivos me parecem evidentes demais para ter que escrever sobre isso).


Em segundo lugar, Unger e todo mundo que conhece minimamente o Brasil sabe que o DEM, junto com o PMDB, é uma representação partidária organicamente ligadas às oligarquias locais tendo como base principal o Norte e Nordeste do país. Não existe isso de "empreendedores regionais" (termo, inclusive, também propositalmente vago): esse é o partido de ACM, Mendonça Filho, ACM Neto, Marcos Maciel, Rodrigo e Cesar Maia, Gustavo Krause etc. O DEM é a encarnação do coronelismo - ainda que aburguesado - que nunca foi superado dado a permanência das estruturas sociais que dão sustentação a esse fenômeno histórico.


Terceiro, e mais importante, o DEM, antigo PFL, foi o principal partido de sustentação do Governo FHC e o principal parceiro do PSDB desde que Lula subiu na presidência. DEM e PSDB têm diferenças entre sim por responderem a bases e composições sociais mais ou menos diferentes, mas no sistema político brasileiro, desde 1994, são os principais artífice e operadores do programa neoliberal puro - sem a caridade cristã, ou o social-liberalismo, típico do PT. Tucanos e democratas são almas gêmeas: o burguês cosmopolita que fala francês e adora Nova Iorque e o burguês menos refinado que manda como seu avô, o grande senhor de escravos, lhe ensinou. Nesse sentido, classificar o DEM como um partido de centro, e os tucanos como a direita, é no melhor dos casos duvidar da inteligência do leitor e prestar uma grande homenagem ao cinismo nosso de cada dois anos.


Por fim, toda crítica de Ciro Gomes ao PT pela costura de aliança com os golpistas, como as más companhias de Lula em sua caravana pelo Nordeste, se esvai no ar. DEM, PSDB e PMDB são os principais operadores políticos do projeto em curso com o impedimento de 2016. Os três têm igual responsabilidade na destruição da CLT, terceirização irrestrita, PEC da MORTE, desmonte da Petrobras, contrarreforma do ensino médio etc. etc. etc. Não é possível escolher entre o "bom golpista" e o "mal golpista". Unger sabe disso, mas é época de eleição.


Novas embalagens para antigos interesses. Depois não adianta reclamar que a nossa classe, especialmente a juventude trabalhadora, olha todos como iguais. Vocês se comportam como iguais, mesmo não sendo o mesmo. E pior: desrespeitam a inteligência do nosso povo.


Entrevista de Unger disponível aqui: https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,nao-vejo-o-dem-como-partido-de-direita-diz-auxiliar-de-ciro-gomes,70002379436